Não sei se outros transplantados se queixam do mesmo, mas no meu caso noto uma alteração grande no meu modo de estar, na minha reação, na atitude face a adversidades, dificuldades ou situações limite. Digamos que o meu "feitio" mudou, não necessáriamente no bom sentido. Penso que nada tem a ver com a operação em si mas sim com o processo, e toda a "tramitação", aquilo que se passou, aqueles momentos em que olhar no espelho era para mim uma experiência traumatizante. Verdade que parecia lógico que o ter passado pelo que passei poderia ter introduzido um sentimento de relativização face a situações que anteriormente pareciam inultrapassaveis Na realidade essa desvalorização das dificuldades surge, vivo melhor com menos, mas o feitio esse tornou-se mais irascível, pouca coisa me faz "saltar a tampa", e a minha reação é agora imprevisível, e muitas vezes indesejável para mim mesmo. Tenho menos autocontrolo, e por vezes perco as "estribeiras". Claro temos também os diabetes que não ajudam nada. Tenho observado outros transplantados cardíacos e de facto encontro em todos esses sintomas. A impaciência, a ansiedade, a reação intempestiva fazem agora mais que nunca parte do meu feitio.
quinta-feira, 9 de junho de 2016
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Desaparecer
Não sei se o mesmo sucede com outros transplantados de outros orgãos, penso que sim, mas por aqui de vez em quando os poucos transplantados de coração (cerca de 50 por ano, dos quais uma vintena em S.Marta ) desaparecem, isto é entregam a alma ao criador. Alguns já vi desaparecer, quase sempre associados a comportamentos nem sempre de acordo com os parâmetros do "livro cor de rosa", a brochura que nos é oferecida após o transplante. Assim temos por aí comportamentos de risco que não são abandonados, medicamentos que só são tomados porque a "mulher" lhes toma conta, ou pouco cuidado na ida a locais que recomendam proteção com máscara. Mas também há os outros, poucos, que nunca chegam verdadeiramente a "levantar cabeça". Tenho um caso de morte recente em que tudo aconteceu. Durante os três ou quatro anos de transplante de coração a sua casa era mais S.Marta. Infeções bacterianas permanentes, edemas, perda de andar, pois as pernas não aguentavam o peso do corpo, depois glaucoma, cegueira, e por fim problemas digestivos que acabaram por conduzir a morte prematura. Assim perdi um amigo, amizades de hospital claro. Mas esta é a exceção. A regra são os maus exemplos, Não são tudo rosas,. mas há muitos espinhos que podemos evitar.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Mínimos
Cinco anos e mais seis meses na condição de transplantado cardíaco o trauma sobrevive e a vida, embora possa ter retomado o seu ciclo, fê-lo numa lógica de "serviços mínimos". Claro mais vale uma vida em serviços mínimos do que uma vida "encerrada para balanço". Acerca disso nenhuma dúvida. Tenho procurado manter actividade, novos interesses tomaram uma dimensão que não tinham, é o caso da pintura, que embora já merecesse o meu interesse, agora dedico-lhe muito mais tempo, seja a pintar seja a animar grupos que pintam, e neste momento já são três com cerca de vinte pessoas e que seguem as minhas sessões que faço de forma benévola, pois a minha condição de aposentado por incapacidade não me permite que isso me dê qualquer rendimento, que felizmente não necessito. A minha condição de "alentejano" adoptado, que vive em permanência no BA também não me permite outras alternativas. Mas sinto-me bem assim. Poderia estar condenado à irrelevância dos meus sessenta e três anos doentes, mas penso que a dedicação e o esforço fazem de mim um ser com relevo, alguém. Se me perguntam se é uma vida plena, não, não é. Imponho a mim mesmo muitos limites, ou melhor são me impostos pela minha condição, pelo estado a que cheguei quando se fez o transplante, pelas suas consequências, pela medicação maciça e agressiva a que estou sujeito, pela ditas intercorrências, uma coluna desgraçada por meses de internamento, uma vista atacada por edemas que me afectam a visão, os diabetes, a condição de hipo-coagulado, mas um coração "usado" mas em bom estado. O meu dador foi generoso, ou generosa, pois a minha médica de família jura sobre a Bíblia que é de mulher. Esta a cartilha dos meus serviços mínimos. Mas ainda assim serviços feitos.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
Acidente
acidente
substantivo masculino
1. Casualidade não essencial.
2. Sucesso imprevisto.
3. Indisposição repentina que priva de sentido ou de movimento.
4. Irregularidade do terreno, quebra, ondulação, fragosidade.
5. [Gramática ] Flexão.
6. [Música ] Sinal gráfico que precede uma nota na pauta e que modifica a sua altura (ex.: existem cinco acidentes: sustenido, duplo sustenido , bemol, duplo bemol e bequadro).
7. [Teologia ] Figura, cor, sabor e cheiro que fica do pão e do vinho após a sua consagração. (Mais usado no plural.)
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Recomeçar
recomeçar
verbo transitivo e intransitivo
Tornar a começar. = REINICIAR
Tudo se vai iniciar aonde terminou o anterior capitulo da vida. O meu velho coração já terá ido para uma incineradora situada algures nos subúrbios, era 27 de Janeiro de 2011 regressava a casa com o meu novo coração pronto para o que der e vier. Os bombeiros foram-me buscar e na viajem para o Alentejo tudo estava tão diferente desde aquele dia 29 de Setembro em que tinha feito o percurso inverso, de Beja a S.Marta, com uma leve esperança de vida e uma grande cruz sobre a minha cabeça, na incerteza de uma espera que podia ser de semanas ou de meses ou nem acontecer, pois morrera entretanto. As árvores na beira da autoestrada eram diferentes, a paisagem que sonhara voltar a ver agora era invernosa e estava frio embora com sol. Além de ser transplantado agora também era diabético. A longa e perigosa insuficiência cardíaca tinha deixado a sua marca e cravado a garra no pâncreas ( talvez do mal o menos), e tinha de tomar insulina entre as outras pílulas, cápsulas, comprimidos, pomadas, drageias. Em casa nos primeiros tempos arrastava-me, pagava o preço de uma longa permanência na cama, e tudo me atrapalhava. Entretanto uma dor intensa na virilha dificultava, e em breve um enorme hematoma crescia na região femural, onde há uns dois meses tinha progredido uma infeção através de um cateter central colocado na artéria fémural na dificuldade de encontrar outras localizações. Agora retomava a mesma infeção, com dor intensa. Para começar nada mal. A 13 de Fedvereiro, isto é cerca de quinze dias após a alta, por recomendação do Dr RS regressava a S. Marta, de novo para a UCI, onde tanto tinha sofrido. Quando lá entrei só me apetecia morder, voltar às mesmas caras, a mesma luz nos olhos, os mesmos enfermeiros, médicos, cheiros, ruídos, equipamentos, agulhas, análises, tudo igual, tudo incerto, só que agora já tinha um coração novo, vá lá ! Fui transportado numa ambulância dos Bombeiros de Ourique, e para ajudar tivemos um acidente no caminho ! Ando a brincar com a sorte !
Lustro
lustro
substantivo masculino
1. Período de cinco anos.
2. Polimento.
3. [Portugal: Trás-os-Montes] Relâmpago.
Passaram no passado dia 26 de Dezembro cinco anos sobre a data do meu transplante cardíaco. Cinco anos parece uma eternidade, Segundo li a sobrevida média dos transplantados cardíacos situava-se nos 13 anos em 2010, ano até ao qual tinham sido feitos 558 transplantes em Portugal, hoje penso que iremos para os 700. A sobrevida aos 5 anos que era de 66% há alguns anos hoje situa~se nos 73%, dados de Espanha onde terão sido feitos cerca de 6500 transplantes cardíacos. Assim estou dentro da normalidade, ou seja não faço parte dos 27% que morreram antes dos 5 anos, e para a média ainda tenho 8 anos de vida, sendo que com os meus 63 anos as estatisticas dizem que poderei morrer aos 71 anos. Dado que a esperança de vida dos homens em Portugal é de 77 anos, afinal a fazer fé nas médias só perderei 6 anos relativamente aos "macho latino médio português". Isto se valorizar apenas a morte. Mas há algo que já ninguém me tira, o sofrimento, e a vida feita "em serviços mínimos". Passaram 5 anos e tantas coisas ocorreram quase todas com uma relação directa ou indirecta com os "estranhos acontecimentos" de 2010 que hoje aqui evoco. As memórias destes cinco anos valerão tantos como as dos 4 que antecederam o transplante, e os acontecimentos passam por 3 internamentos, algumas infeções, um divórcio, um acidente de ambulância, uma total dependência de medicamentos, perda de qualidade de vida, deslocações periódicas ao hospital e centro de saúde, despesas médicas. desânimo por vezes, sofrimentos, muito, solidão, alguma, mas acabo por conservar ainda uma coisa que é insubstituível, a vida, como Deus a deu. Vou retomar este blog para relatar essa experiência.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Cadeirão
cadeirão
(cadeira + -ão)
(cadeira + -ão)
1. Cadeira grande.
Não havia solução para melhorar o conforto, nem para tornar a estadia menos penosa. Uma banqueta para pôr os pés (por vezes sabiamente escondida para evitar o seu desaparecimento), ou então uma simples caixote de embalagens de soro era o que ainda se podia arranjar de resto, improvisa-se. Não são queixas são apenas constatações. Toda a gente fazia o melhor para tornar tudo mais fácil e agradável, mas como se diz, sem ovos não se fazem omoletes.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Agulhas
agulha
1. Hastezinha metálica que serve para coser, bordar, fazer meia, malha, etc.
2. [Por extensão ) Ofício de costureira ou alfaiate.
3. Espécie de buril.
4. Instrumento para limpar o ouvido das armas de fogo.
5. Lardeadeira.
6. Aguilhó.
7. Ponteiro (de relógio, de bússola).
8. Fiel de balança.
9. Extremidade pontiaguda de obelisco, campanário, montanha, etc.
10. Cernelha.
11. [Enologia ] Sabor picante e agradável de certos vinhos.
12. Alavanca com que se manobra o carril móvel que faz mudar de via (nos caminhos-de-ferro).
13. Esse carril móvel.
14. Instrumento de veterinária para unir cascos fendidos.
15. Instrumento de cirurgia para perfurar partes moles.
16. Ponteiro de manómetro .manômetro .
17. [Ictiologia ] Espécie de peixe escombrídeo azul.
18. [Ictiologia ] O mesmo que peixe-agulha.
19. Parte da dobradiça macho que entra no orifício da fêmea.
20. Percutor do fulminante nas armas de fogo.
21. Folha do pinheiro.
22. Cume da cernelha do cavalo
Os primeiros tempos foram complicados. Todo eu tremia perante a expectativa de ser "picado". Procurava não olhar para não sentir. Depois pensava numa praia longínqua, no horizonte de um mar, numa praia, para que o meu espírito pairasse o mais longe possível, do local onde a agulha e a veia se íam encontrar, qual ferrão de uma abelha. Tudo me atormentava, mas aos poucos habituei-me, e as picadelas sucediam-se todos os dias, em diversos locais do corpo, do pescoço, às virilhas, com os mais diversos pretextos, em veias, artérias, musculo, pele. Procurava não pensar muito no assunto evitava dramatizar e entregava-me de corpo e alma à imperiosa necessidade. Impunha a mim mesmo, cerrava os dentes, fechava os olhos, o medo já não era da dor, que nalguns casos era pequena (mas nem sempe), pois cateteres nas mãos por exemplo, eram um suplício. mas parece que o medo era da própria agulha, e da perspectiva da sua utilização.
Acabei por ultrapassar, mas não aceitei nunca, ainda hoje, em que as picadelas escasseiam, os medos retornam, quando já nos esquecemos, quando já não estamos a contar, acabam por regressar quando parece que o inimigo já bateu em retirada as agulhas regressam e querem de novo tomar a iniciativa, quando me acham esquecido, distraído, de costas voltadas, quando parece que já me rendi.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Agradecimento
agradecimento
1. Ato ou efeito de agradecer.
2. Expressão ou facto . que manifesta gratidão.
Há de facto muito para agradecer, a quem me deu apoio, visitou, me trouxe comida, ânimo e estímulo, e a todos os profissionais que me trataram. Mas ao "agradecer" a Deus estou a agradecer a todos, num acto único, até a mim mesmo por ter tido a coragem e a força que permitiu a sobrevivência.
Assim normal é que me aproxime desse "ser" superior, se tiver fé, ou de alguma entidade, ideia, pessoa, para mostrar esse reconhecimento, vontade de mostrar que valeu a pena o "sacrifício" de um outro ser que perdeu a sua vida, valeu a pena e foi bem aproveitado. Ao agradecer a Deus, ou a outros, estarei a justificar perante mim mesmo a atrocidade que ceifou a vida de outra pessoa desconhecida, a reparar, se é possível, esse dano, e assumir a melhor guarda para o orgão que me foi confiado, sem me pedirem nada em troca. Uma vida por uma vida, obrigado meu Deus pela oportubidade, é o que posso e quero dizer. Claro que a fé implica a crença nessa ideia maior, nesse ser superior, que tudo pode dar e retirar, decidir quem chama a si e quem salva, por um comando do destino sobre cada um de nós. Para além disso há ainda o simples agradecimento"terreno" às pessoas, aquelas que me trouxeram empadas, televisão, "phones", computador, companhia, palavras, livros, afectos, comida, hamburgers, roupa, sapatos, carícias, discussões, comversas, simples presença, amizade ou compreensão, tudo isso tem de ser agradecido, pela atitude, pelo retorno e pela vontade.
Ao agradecer a Deus, Deus retorna em compreensão o nosso agradecimento, e vela para que seja capaz, esteja à altura de tomar conta o bem precioso que me confiou, dado que outro não teve essa benesse para que eu vivesse. Parece simples, parece evidente, mas nos momentos dificeis que irão surgir, será que sou capaz de manter essa coerência?
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Psicologia
psicologia
1. Parte da filosofia que trata da alma e das suas manifestações.
2. Estudo dos fenómenos . psíquicos.
Dizia eu, há algum tempo, que uma consulta com um psicólogo pode ser substituída por uma conversa com amigos, uma visita de família, ou a leitura de um bom livro. Hoje penso que não é bem assim.
De um primeiro contacto desconfiado, acabou criando-se um clima de confiança. As dúvidas acerca do presente e do futuro da minha situação, como lidar com as suas consequências, a antevisão do que poderia acontecer e como gerir os acontecimentos, lidar com eles, mais do que com o médico assistente, estes assuntos foram tratados com a Drª N. Ela sempre soube colocar as boas perguntas, responder às minhas dúvidas, as que tinham resposta, ou não responder àquelas que a não tinham.
As conversas tornaram-se quase diárias, ou no mínimo duas ou três vezes por semana. Aspectos relacionados com o internamento, com a cirurgia para que estava proposto, com as suas possibilidades de sucesso ou insucesso, a família, os amigos, a doença e as suas implicações, o futuro e a forma de o encarar, as intercorrências e o seu impacto. Um apoio excelente, impecável e quase imperceptível, com uma subtileza e uma inteligência que me surpreendeu, A ajuda foi muito especial. Não é de facto "apenas" uma conversa de amigos ou de família. Apercebemos-nos bem da presença de profissionalismo, que simultâneamente aproxima e mantém uma distância adequada, longe para que não nos sintamos "invadidos", mas não tão longe que nos sintamos apenas "observados".
Antes e depois do transplante a lógica foi sempre a "preparação" de um futuro, esclarecido e sem medos, em que a consciência dos limites do problema estava sempre muito claro, sem dar uma imagem mirífica do que se poderia vir a passar. Bem pelo contrário. Tudo me pareceu mais claro, e sempre fiquei muito mais esclarecido, mais consciente, com uma visão mais clara. A própria MA se socorreu dela uma os duas vezes, e a intervenção foi sempre muito profissional, sem interferências abusivas, pisando sempre um terreno firme, sendo que as certezas e as dúvidas eram claras e passadas para o doente, sem deixar lugar a ambiguidades. A ajuda assim obtida foi inestimável, e muito contribuiu para estabilizar o meu estado de espírito e criar uma força suplementar, esclarecida, para enfrentar a adversidade. Mais consciente, melhor informado, mais forte.
Quando entramos no processo de transplante, nada sabemos dele, ou muito pouco. Os médicos, por razões profissionais, feitio ou falta de tempo, pouco esclarecem, ou fazem-no apenas por monosílabos. Foi a psicóloga quem mais me ensinou acerca dos detalhes do processo. Talvez por olhar para ele da mesma forma do doente, de forma simples, com a maior compreensão, acerca das dúvidas do doente e a capacidade de dar aquelas resposta simples que procuramos. Perguntas, como por exemplo, "como é o isolamento?", "quanto tempo lá estarei?", "vale a pena acreditar na eficácia do transplante?", "o que se come depois de ser transplantado?", "que evolução terá o meu corpo?", "terei uma vida normal?", perguntas a que respondia de forma a que o doente percebesse que também que há coisas que já sabe, pela experiência de outros, outras coisas não sabemos mas suspeitamos. Sem a responsabilidade que teria um médico ao dar as mesmas respostas, a psicóloga ajudou-me a compreender melhor o presente e o futuro, a preparar uma vida equilibrada para além do transplante, para além daquela cama, daquelas enfermarias. Foi uma das coisas boas que me aconteceram naquele hospital. Mudou a minha forma de ver a psicologia, as consultas e o "acompanhamento" proporcionado por estes profissionais.
domingo, 18 de novembro de 2012
Suor
suor |ó|
(latim sudor, -oris)
(latim sudor, -oris)
1. Humor aquoso que é segregado .secretado pelas glândulas sudoríparas e destila pelos poros. = TRANSPIRAÇÃO
2. Ato de suar; estado de quem sua. = EXSUDAÇÃO, SUDORESE, TRANSPIRAÇÃO
3. Trabalho grande ou intenso. = FADIGA, ESFORÇO, SACRIFÍCIO
4. Fruto desse trabalho.
Em plena noite sucedeu várias vezes acordar encharcado em suor. O pijama molhado, o suor a correr pelo rosto, pelas costas, em pleno inverno. Só me restava chamar o enfermeiro ou auxiliar, e pedir para fazerem algo. E vinham sempre, mudavam-me a roupa, trocavam o pijama, despiam e vestiam, por vezes mudavam mesmo os lençóis. Uma das vezes, recordo-me bem, já não havia pijamas disponíveis, tive mesmo de vestir um "baby doll" de senhora, apertado nas costas com botões, verde com florinhas cor de rosa, isto para poder dormir em seco. Sempre se arranjou solução.
Após as refeições, sobretudo depois do jantar, e enquanto decorria a digestão, o coração corria desordenado, carregado pelo trabalho que uma simples digestão lhe dava, e o corpo respondia com suor, muito suor. O calor na pele queimava e o suor procurava contrariar esse aumento de temperatura, também nos momentos piores, durante as infeções que ocorreram, a febre surgia, e lá vinha de novo o suor. Aí sempre chamei por ajuda, embora tivesse consciência do trabalho que ía dar áquelas pessoas, que procuravam proporcionar, dentro dos seus limites, conforto, para além de tratamento. Suor, suor e mais suor. Apenas suor.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Morte
morte
(latim mors, mortis)
1..Ato de morrer.
2. O fim da vida.
3. Cessação da vida (animal ou vegetal).
4. Destruição.
5. Causa de ruína.
6. Termo, fim.
7. Homicídio, assassínio.
8. Pena capital.
9. Esqueleto nu ou envolto em mortalha, armado de foice, que simboliza a Morte.
O primeiro episódio ocorreu no Hospital de Beja, paragem cardíaca revertida pelo enfermeiro Armando, numa fase muito inicial, com intervenção dos cuidados intensivos, o que conduziu à minha primeira cirurgia. Após isso, e durante três anos tive vários episódios desse tipo, mas apenas o primeiro após alta da cirurgia, me encontrou ainda desprotegido, mas com sorte a morte não aproveitou a oportunidade. Foi nessa altura que se decidiu fazer a implantação do CDI, e a partiu daí todos os restantes episódios, mais de uma dezena e meia, ocorreram comigo defendido, e a morte não conseguiu vencer a batalha apesar de tantas oportunidades.
Após muitos episódios desse tipo, e devido ao agravamento muito rápido da insuficiência cardíaca criaram-se as condições para o transplante. Em determinado momento, já não havia garantias que, apesar da actuação do CDI o coração, devido à sua enorme debilidade, tivesse ele mesmo condições de reagir ao estímulo eléctrico do CDI, e repôr as condições "normais".
A partir daqui a imagem da morte passou a conviver comigo. Mais do que uma possibilidade passou a ser um probabilidade real e elevada. Enquanto aguardava por orgão compatível, sabia bem que a morte seria uma visita muito próxima e possível, indesejável, mas possível.Isto colocava na minha cabeça perguntas que noutro contexto seriam absurdas. Cremado ou entregue à terra ? Escrevi cartas à MA, às filhas, à C, dando algumas indicações. Onde ficar ? Como decorreria o funeral e aonde ? Que música tocar ??? O que iria ser de mim do meu corpo, para onde iria ? O que diriam de mim, que imagem deixaria nas pessoas ? O que "queria" para o "eterno repouso" ? Tudo me passava pela cabeça. Lembro-me que optei por ser cremado (é a moda ...) Via a pequena urna num local bem definido.
A noite acentuava a presença da morte, pois no sossego quase ouvia o coração a bater desordenado, alguns batimentos a falhar, como um motor engasgado. Medo não tinha, sabia bem que a morte faz parte da vida, e a morte por colapso é rápida e indolor, tinha-a sentido aquando das paragens cardíacas, não dava por nada, apagava como uma luz que se extingue. A morte acabava por ser o prolongamento normal da própria vida e está tão perto de nós como a vida. É apenas uma mudança de estado.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Fé
fé
(latim fides, -ei)
(latim fides, -ei)
1. Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro.
2. [Religião ] Sentimento de quem acredita em determinados ideias ou princípios religiosos. = CRENÇA
3. Religião, culto (ex.: fé cristã, fé islâmica).
4. [Religião ] Uma das virtudes teologais.
5. Estado ou atitude de quem acredita ou tem esperança em algo. = CONFIANÇA, ESPERANÇA ≠ CEPTICISMO, INCREDULIDADE
6. Fidelidade.
7. Prova.
8. Testemunho autêntico dado por oficial de justiça.
Ninguém suporta este tipo de espera sem um objectivo, sem a fé de ser capaz do atingir. Os não religiosos, como é (era, não sei ...) o meu caso, não têm o impulso suplementar, nem forças suplementares para além daquilo que é racional. Se a relação com o "não sei o quê" não existe, ou é limitada, como acreditar ? É um tempo de acreditar. Se não acreditar que a espera resulta, como chegar ao resultado esperado ? Daí a dúvida, daí o novo papel de uma fé, uma fé sem religião ( pode ser ?), sim, julgo que sim...
Acreditava que algo se iria passar de positivo após tudo o que já se passou, tudo o que foi vivido e revivido. Surgiu assim uma grande fé no sucesso da cirurgia, na sua realização atempada, uma fé que me fazia não estar ali apenas por mero acaso, mas sim por um imperativo que me ultrapassava, num caminho com um destino, mesmo que amanhã viesse a morrer e nada se passasse conforme o desejado.
Uma fé ajudaria, sem dúvida, mas depende da postura de cada um na vida, não será uma fé cega e sem conteúdo, sem uma verdadeira razão para acreditar. Acreditar porque sim, não ! razões existiam e muitas ! Coisas que ocorreram e que, em cada incidente, me mostrou que não era aquela a minha hora, não seria o momento em que seria chamado. Quando, depois de uma paragem cardíaca, estava rodeado de médicos que estavam a jantar no mesmo restaurante, por mero acaso, e que me salvaram "in extremis". Quando o enfermeiro estava de passagem no corredor e actou numa outra paragem cardíaca. Quando estava junto a mim um enfermeiro a recolher sangue e me reanimou com um murro salvador no peito, parece que há uma mão invisivel que me devolve à realidade, ao meu presente, salvando-me de uma morte quase certa.
Assim desenvolvi uma fé própria, em alguém, em alguma coisa, uma capacidade de salvação que por vezes ultrapassou a lógica do raciocínio que se tornou numa força pela vida, mesmo nos piores momentos, sempre acreditei, sempre foi possível para mim uma forte crença no sucesso, e que mais tarde ou mais cedo a solução estaria na minha mão, como acabou por estar. Nessa fé nunca pedi demais, sempre pedi apenas o dia de amanhã. À noite, ao adormecer pedia (a quem ?) que me fosse concedido apenas mais um dia, e agradecia o dia que ía terminar. No dia seguinte a solução poderia surgir. Acabou por surgir.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Banho
banho
(latim balneum, -i)
1. .Ato de banhar ou banhar-se.
2. Líquido em que alguém se banha.
3. Imersão em.
4. Exposição a alguma coisa (ex.: banho de sol).
5. Inserção temporária em determinado meio (ex.: banho de multidão).
6. Líquido para tingir.
7. [Informal] Derrota pesada ou superioridade clara (ex.: deu um banho ao adversário). = BANHADA
8. [Antigo] Presídio de forçados.
O banho numa cama é arte, sobretudo para quem tem de dar, e é um pesadelo para quem recebe. Pelo menos no inicio quando nos despimos e sentimos um frio intenso. No final, as voltas todas dadas, tudo resolvido, cama feita, lençóis novos, dá uma sensação de alívio, uma frescura, quando a cama nos abrasa, quando a noite foi inundada por suores, como muitas vezes aconteceu. Neste caso de manhã sentia uma enorme necessidade da água, mesmo apenas uma toalha húmida em contacto com o corpo. Mas vamos à arte.
O banho na cama começa pelo retirar da roupa, soltar os lençóis da sua posição e colocar uma toalha por cima para tapar as "partes íntimas", evitando a exposição, pois em geral era dado por duas pessoas, uma auxiliar e uma enfermeira. Duas bacias, água morna, sabão líquido, duas esponjas. Mais duas toalhas.
O percurso inicia-se na cabeça, na testa, nariz, olhos e resto da face, corre a água e logo se procura secar. Passar bem os olhos, para que se abram e não fiquem as pálpebras coladas pelos restos de uma noite em geral mal dormida. Passa-se ao peito e à barriga, braços e axilas. Segue-se para as pernas e pés que são lavados dedo a dedo e logo secos cuidadosamente. A secagem é imediata para não se apanhar frio. Ainda de barriga para o ar as partes íntimas ficam ao cuidado do paciente. Poucos enfermeiros se aventuraram por aí, a menos que seja verdadeiramente necessário. Nesse ponto cada um trata de si. Pára-se no limite da "humilhação" para o paciente. Depois com apoio, roda-se o corpo como se se estivesse a enrolar um cigarro, para lavar as costas e as nádegas, que ficam a cargo da enfermeira. Entretanto vai-se introduzindo o lençol limpo por baixo do paciente, e faz-se a cama de um dos lados. Terminada esta fase o doente roda no sentido contrário para cima do lençol limpo, e este é puxado por baixo do paciente, enquanto se retira o lençol sujo.
Trabalho limpo e rápido. O lençol é entalado na cama após bem esticado, e apenas se terá agora de colocar o lençol por cima e vestir pijama, para o que há sempre uma ajuda, pois tem de se assegurar a colocação dos fios e tubos retirados, e que os que o não foram não se soltem.
Tudo pronto, uma sensação de grande alívio, de limpeza, de frescura, misturada com uma vontade de meter os pés e as mãos dentro das bacias de água, chapinhar, o que por vezes os enfermeiros permitem.
No período de espera, por vezes estava em condições de ir à casa de banho, acompanhado com um enfermeiro ou auxiliar. Aí sentava-me no apoio metálico, que era uma espécie de "cadeira", onde me sentava, despia, e o acompanhante dava chuveirada dos pés à cabeça. Procurava proteger com sacos de plástico, pensos, tubos, aparelhos que me acompanhavam até ao banho, pois as perfusões não podiam ser interrompidas, e o banho era completo mas rápido. Já todos, homens e mulheres, auxiliares e enfermeiros, conheciam o meu corpo nu, tecendo comentários acerca da minha magreza e estado "escanzelado". Mas reconheço que tentavam ser agradáveis, positivos, e nunca deixavam transparecer que estariam a fazer algo de anormal, pelo que jamais senti algum pudor acerca do acto de tomar banho nu, perante homens e muheres que só ali conheci. Ía e vinha em cadeira de rodas, pois só o pequeno trajecto entre a cama e a casa de banho, cerca de 50 metros, era demais para o meu coração tão debilitado.
Após o transplante, no isolamento era dado banho na cama, mas já no meu quarto/enfermaria, que tinha uma casa de banho privada, comecei por tomar banho ajudado, pois na primeira semana as forças eram poucas. Passado esse período, comecei a tomar banho sózinho, embora sentado, procurando estratégias que facilitassem o acto. Dificil era vestir sozinho, mas para simplificar já deixava a roupa em posição que facilitasse. Tudo tinha de ser estudado e a regra era não dar o passo apenas com a perna, mas antes, dá-lo com a cabeça, e aplicava-se na perfeição a tudo, para evitar passos em falso e riscos inúteis.
Retornado a casa, um novo desafio se colocava. As primeiras vezes a passar a parede da banheira parecia uma prova de salto em altura. Muito cuidado com tapetes, ou anti-escorregas na banheira, uma pega para me agarrar, um banco de plástico, para apoiar dentro da banheira foram aquisições obrigatórias, Pouco a pouco a confiança no novo espaço, a nova realidade, e lá nos vamos adaptando pois um homem adapta-se a tudo, ultrapassa todas as barreiras, para sair limpo e bem barbeado, e para obter conforto também é preciso correr riscos.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Sangue
sangue
(latim sanguis, -inis)
(latim sanguis, -inis)
1. Líquido espesso, ordinariamente vermelho, que circula pelas artérias e veias (ex.: sangue arterial, sangue venoso).
2. Princípio de existência, de força, de entusiasmo, de atividade . = VIDA
3. Grupo de indivíduos que têm um ancestral comum (ex.: são do mesmo sangue). = FAMÍLIA
4. Geração.
5. Natureza.
6. Corrimento sanguíneo . periódico das mulheres. = MENSTRUAÇÃO, MÊNSTRUO
Quando do meu primeiro grande internamento, no qual fiz os by-pass cardíacos, já se constatava a dificuldade em encontrar as minhas veias nos braços, por vezes profundas, outras "bailarinas", como dizem os enfermeiros, para se referirem a veias que "fogem" da agulha, e não se deixam picar. Nessa altura tive alta com os braços todos negros, e cheio de hematomas. Afinal, ao pânico da recolha de sangue, outras situações se seguiram, relativas a cateteres nos braços para perfusãode medicamentos por via intra venosa, alguns dos quais muito agressivos para as paredes das veias, provocando inflamações, hematomas, derrames; tal é o caso da amiodarona, medicamento antiarritmico, que me foi ministrado por essa via, e em poucas horas me provocava inchaços , e sensação dolorosa nos braços.
Mais tarde, quando do internamento para transplante, a situação complicou-se, o internamento foi mais prolongado, foram colocados cateteres periféricos nos braços, cateteres centrais (em artérias), no pescoço, abaixo da omoplata, nas virilhas, pois as veias acabavam por se "cansar" dos ditos, e um cateter dura alguns dias e tem de ser mudado, e encontrado outro local para o aplicar, os cateres centrais podem durar quinze dias, e tudo tem de retornar ao princípio, isto é novo cateter, nova localização, nova complicação, dado que muitas das vezezs, não era possível colocá-lo numa primeira tentativa, implicando ser picado duas, três ou mais vezes. Já não sei se o meu problema era com a visualização do sangue, se com a picada da agulha ou apenas com o imaginar de tal situação.
Seja como for, mais um obstáculo a ultrapassar; aí se conclui que nos habituamos a tudo o que necessitamos. A nossa capacidade de adaptação, tendo limites, evolui, e acaba por nos dar a capacidade de suportar aquilo que parecia insuportável. Assim comigo e com a minha turbulenta relação com o sangue e as agulhas.
À medida que a espera por orgão compatível se prolongava, os meus braços iam ficando cobertos de nódoas negras, cada vez mais a recolha de sangue era penosa, uma das vezes fui picado sete vezes seguidas até se conseguir retirar sangue para uma hemocultura, que implicava várias recolhas. As sete vezes apenas para uma das recolhas.
Os cateteres, que inicialmente eram colocados nas mãos ou nos braços, passaram nalguns casos a cateteres centrais, colocados nas artérias, para continuar a assegurar a medicação intravenosa, e para meu repouso, pois alguma da recolha de sangue era feita no cateter central, "poupando-me" a mais umas picadelas. Cada vez que eram colocados, era como se de uma pequena cirurgia se tratasse, feito por um médico e não por enfermeiros, era dada uma pequena anestesia local, para a sua colocação, pois havia que perfurar a artéria, que tendo sangue sob pressão, tem risco de hemorragia, coisa que não se passa nas veias.
Após o transplante as recolhas de sangue continuaram, quase dia sim dia não, pois as doses de alguns medicamentos implicavam conhecer os seus valores. Algumas das vezes não sendo já possível encontar região dos braços onde picar, foi necessário chamar uma anestesista que fazia a recolha de uma artéria, no pescoço, nas virilhas, no fundo nos locais onde se aplicavam os cateteres centrais.
Quando tive alta , depois do transplante, os braços estavam cobertos de nódoas negras, de hematomas, as mãos inchadas, dormentes, pois à falta de outras soluções, as mãos também serviram para colocar cateteres ou fazer recolhas. Hoje, passados muitos meses, as análises são mensais e o corpo regenerou, embora as mãos continuam com dormencia e dores.
Agora os braços votaram quase ao normal, e o débito nas veias aumentou, pois era o falta de débito que dificultava as recolhas, o "novo" coração tem agora uma capacidade de bombagem de sangue muito melhorada. Mas o meu pânico com o sangue permanece, agora mais controlado. Ainda olho para o outro lado quando a agulha penetra na veia, e procuro na extensão do mar, respirar calmamente, e apenas pensar nesse mar a perder de vista, imagem que me tranquiliza e que permite que tudo possa ser feito com calma.
A adaptação faz-se, mas quando passa a necessidade, voltamos aos nossos medos, aos nossos pânicos, como se nada se tivesse passado. Regeneramos a postura e a atitude face às novas situações. A nossa mente é mais forte, em qualquer dos sentidos, e assim nos mantêmos. O sangue continua a ser um fantasma que me assusta, apesar dele ser a essência, a corrente que nos traz a vida.
sábado, 27 de outubro de 2012
Luz
luz
(latim lux, lucis)
(latim lux, lucis)
1. O que, iluminando os .objetos os torna visíveis.
2. Candeeiro, lâmpada, vela ou outra coisa acesa.
3. Efeitos de luz em quadro, fotografia ou outra representação.
4. O que ilumina o espírito. = CLARIDADE
5. Claridade de um astro. = DIA
6. Brilho, fulgor.
7. Critério.
8. Evidência.
9. Ilustração.
10. Publicidade.
Havia sempre pretexto para manter a luz acesa, ou porque um doente ía ser transferido, ou porque se aguardava um doente que ía chegar, ou porque "não se vê nada", ou porque as luzes "se estão lá é porque são precisas".
Durante a noite a claridade na UCI era total e só conseguia dormir com umas vendas nos olhos o que ajuda muito as pessoas que têm grande sensibilidade à luz, ou têm dificuldade em dormir com luz, é o meu caso. Nas enfermarias era um pouco diferente, as luzes eram apagadas por volta das 23 horas e, a partir daí, o sono podia tomar conta de mim em geral "ajudado" por um comprimido para dormir.
Mesmo durante o dia é hábito manter difusores com quatro tubos fluorescentes acesos, e durante algum tempo tive de suportar nos olhos essa catadupa de luz, pois não era capaz de me levantar para as apagar.
A pouco e pouco, com a minha insistência, com os meus pedidos, todos foram percebendo o quanto me incomodavam as luzes acesas, e como ser um pouco mais exigente nesse aspecto tornava a minha "estadia" um pouco mais confortável. e, uma vez explicado, com insistência mas com educação e simpatia, acabamos por conseguir o que queremos, quando os pedidos têm bom senso e são de facto razoáveis.
A minha "guerra" com a luz acabou por ser ganha. Mas tive de fazer muitas adaptações, pois havia coisas impossíveis de fazer. Por exemplo, o corredor da UCIC ficava com as luzes acesas toda a noite, porque sendo apenas um único circuito, ou se mantinham as luzes todas acesas, ou pelo contrário teriam de apagar tudo, coisa não aceitável numa unidade como aquela. Assim a claridade só podia ser diminuida com as minhas vendas nos olhos.
É a luz que nos impede de ver, impede de dormir, a luz que não nos deixa observar "por dentro", que nos deixa despertos, pensamentos em estado de alerta, quando o que pretendia era exactamente o contrário disso, o descanso, o esquecimento de mim, esperar sem "medir" o tempo que passa.
Foi assim uma batalha contra a luz, uma batalha pelo lusco-fusco, que não pela escuridão. Tudo acabei por aceitar como me foi apresentado, mas procurando, com todo o cuidado, o melhor e maior conforto, pois sabia que ía por ali passar bastante tempo, um tempo que eu não saberia estimar.
Hoje, que se fala tanto em redução de custos, em poupar, veja este problema com outros olhos. Na realidade muito se poderia poupar com um pouco mais de atenção às luzes acesas totalmente inúteis. Mais poupança e mais conforto, pois muitos doentes queixavam-se do mesmo que eu, e referiam a incomodidade nos olhos causado pelo excesso de luz, e quanto interferia com a vista, pois estavam como eu próprio, muitas horas na cama, de costas, com os olhos pregados no tecto.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Casa
casa
(latim casa, -ae, cabana, casebre)
(latim casa, -ae, cabana, casebre)
1. Nome genérico de todas as construções destinadas a habitação.
2. Construção destinada a uma unidade de habitação, geralmente unifamiliar, por oposição a apartamento. = MORADIA, VIVENDA
3. Cada uma das divisões de uma habitação. = CÓMODO .CÔMODO , COMPARTIMENTO, DEPENDÊNCIA
4. Local de habitação. = DOMICÍLIO, LAR, MORADA, RESIDÊNCIA
5. Anexo a um edifício.
6. [Náutica ] [Náutica ] Compartimento destinado a máquinas ou equipamento especial (ex.: casa das máquinas).
7. Conjunto de pessoas da família ou de pessoas que habitam a mesma morada.
8. Conjunto de despesas com a habitação.
9. Estabelecimento comercial ou industrial (ex.: casa de chá, casa de fados, casa de hóspedes, casa de saúde). = EMPRESA, FIRMA
10. Lotação de um estabelecimento comercial, geralmente de diversão ou espetáculo (ex.: casa cheia).
11. Local ou instalação que se considera pertença de algo ou alguém (ex.: equipa .equipe da casa; jogar em casa).
12. Designação dada a algumas repartições ou instituições, públicas ou privadas (ex.: Casa da Moeda; Casa dos Açores).
13. Conjunto de pessoas que trabalham diretamente um chefe de estado (ex.: casa civil).
14. Família pertencente à nobreza ou à realeza (ex.: casa de Bragança).
15. Cada uma das divisões resultantes da interseção de linhas em tabela, tabuleiro, tabuada, mapa, etc.
16. Escaninho do tabuleiro do gamão.
17. Posição respectiva dos algarismos.
18. Abertura onde entra um botão de roupa. = BOTOEIRA
19. Número arredondado aproximado (ex.: ele anda na casa dos 40).
20. Posição de um algarismo em relação aos outros que compõem um número (ex.: casa das unidades, casa das centenas, casa decimal).
21. [Encadernação ] [Encadernação ] O mesmo que entrenervo.
A cama teve de levar uma almofada para levantar os pés, devido ao edema, não tinha cadeira ou sofá onde me sentisse bem, o banho era complicado, embora se tivesse colocado pegas e um banco de apoio na banheira. Havia em mim uma tendência para replicar em casa os modos de funcionamento do hospital, que no caso funcionavam como referência. Movia-me com dificuldade, agarrado às paredes, as refeições não sabia bem como as fazer, as regras de higiene e limpeza causavam-me atrapalhação, pois muitas vezes não sabia bem como fazer, não tendo ainda autonomia para me deslocar no exterior, além disso havia chuva e frio, receando alguma constipação; tinha medo e tudo me assustava ou causava dúvidas. A MA fazia as compras, coisa que eu sabia que detestava, a comida, e tratava de mim. Mas via-se bem que tal era um peso, um sacrifício, ao dar~lhe estas "tarefas domésticas" que detestava, assim sentia-me mal também por isso. Demorei algum tempo a encontrar um equilíbrio, mais adequado; entretanto do Centro de Saúde obtinha todo o apoio de que necessitava, vinham fazer pensos, nas pernas, fisioterapia, para dar continuidade ao que iniciara no hospital.
A minha mobilidade evoluía pouco devido ao inchaço das pernas e pés, e as dores lombares e na coluna, que se tornavam cada vez mais duras. De noite tinha de me lavantar muitas vezes para o WC, com as dificuldades inerentes à minha mobilidade. Cheguei a ter saudades do urinol do hospital...
Os primeiros tempos foram dificeis; entretanto começava a rotina do acompanhamento em S.Marta, que de inicio era semanal. Ía num transporte dos Bombeiros, que me custava os olhos da cara. Levantava-me de madrugada, e ía a Lisboa, regressando no final da tarde. Cada viagem podia custar entre 120 e 150 euros, todas as semanas.
Habituei-me bem á medicação, reservara uma mesa apenas com esse fim, onde dispunha de mais de duas dezenas de medicamentos, ampolas, gases, pensos e outro material sobretudo para controlo da diabetes. Entretanto ocupava o tempo a ler, escrever, no computador ou na televisão. A rotina começava cedo, pois pelas 8h00 já tinha medicamentos a tomar, e deitava-me cedo, pelas 21h00 já estava estafado, e precisava de repouso. Por vezes deitava-me de tarde, para aliviar as pernas, aproveitando para retirar as meias elásticas, que me tinham sido prescritas, mas que muito me incomodavam.
Pouco a pouco recuperava as forças, a voz, espaço de manobra, e ía-me libertando da doença, e convivendo com o meu novo coração que se portava bem ao que se ía sabendo.
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