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sábado, 13 de fevereiro de 2016

Acidente


acidente 
substantivo masculino
1. Casualidade não essencial.
2. Sucesso imprevisto.
3. Indisposição repentina que priva de sentido ou de movimento.
4. Irregularidade do terrenoquebraondulaçãofragosidade.
5. [Gramática Flexão.
6. [Música Sinal gráfico que precede uma nota na pauta e que modifica a sua altura (ex.: existem cinco acidentessustenidoduplo sustenidobemolduplo bemol e bequadro).
7. [Teologia Figuracorsabor e cheiro que fica do pão e do vinho após a sua consagração. (Mais usado no plural.)

Por coincidência hoje faz cinco anos da situação que vou relatar. Ter um acidente de ambulância quando se vai para o hospital é um daquele caprichos do destino que parece guardado para os outros. Estávamos a 13 de Fevereiro, era domingo e chovia, A minha situação em casa, após cerca de quinze dias de alta, estava agora insustentável, na virilha um enorme hematoma, estado febril, incómodo e fragilidade. Os bombeiros vieram-me buscar a meio da manhã para regressar a S. Marta, para onde o Dr RS me mandara ir. Como sempre telefonava, mesmo ao domingo e ele atendia e dava uma indicação sobre que fazer. Uma disponibilidade que era muito necessária. Partimos pela auto estrada, de novo o mesmo trajecto para mais um internamento. A moral parecia em baixo, após tantos meses, regressar outra vez ao lugar onde a minha espera desespera. O trajecto sempre me pareceu estar a ser feito de forma um pouco descuidada, para o estado do tempo. A ambulância que me transportava, onde viajava na maca, com os cintos de segurança bem apertados. Aproximava-nos de Lisboa, passava do meio dia, e a ponte 25 de Abril já se via. Entrámos na ponte após passar as portagens, pela faixa central cujo piso é em rede, por isso mais escorregadiço, apenas que apercebo que o condutor perdeu o controlo do carro, este bate violentamente no separador central vira para a direita, bate na protecção lateral da ponte, balouça, o meu corpo mantém-se apertado com o cinto, mas este dá-me um violente aperto no peito, a bombeira que me acompanhava agarra-se, e a ambulância acaba por parar virado no sentido inverso, e sem ter tocado em qualquer outra viatura, pois o trânsito era escasso, era domingo. Toda a gente sai, o transito fica cortado, aprece a policia, e a ambulância já não sai do seu lugar pelo seu pé, ou nas suas rodas. É preciso chamar outra ambulância que vem de Almada, entretanto retiram-me na maca e fico no tabuleiro, à chuva, esperando a nova ambulância que não tarda a chegar. Ninguém ficou ferido, mas eu fiquei magoado, afinal, vim a saber depois, fracturei uma vértebra que me doeu durante semanas, e nada foi afectado na sotura do transplante, que estava ainda fresca e dolorosa. Quando se começa um caminha parece não faltar quem lhe queira pôr pedras !

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Agulhas

agulha
s. f.

1. Hastezinha metálica que serve para coser, bordar, fazer meia, malha, etc.
2. [Por extensão ) Ofício de costureira ou alfaiate.
3. Espécie de buril.
4. Instrumento para limpar o ouvido das armas de fogo.
5. Lardeadeira.
6. Aguilhó.
7. Ponteiro (de relógio, de bússola).
8. Fiel de balança.
9. Extremidade pontiaguda de obelisco, campanário, montanha, etc.
10. Cernelha.
11. [Enologia  Sabor picante e agradável de certos vinhos.
12. Alavanca com que se manobra o carril móvel que faz mudar de via (nos caminhos-de-ferro).
13. Esse carril móvel.
14. Instrumento de veterinária para unir cascos fendidos.
15. Instrumento de cirurgia para perfurar partes moles.
16. Ponteiro de manómetro.manômetro.
17. [IctiologiaEspécie de peixe escombrídeo azul.
18. [Ictiologia]  O mesmo que peixe-agulha.
19. Parte da dobradiça macho que entra no orifício da fêmea.
20. Percutor do fulminante nas armas de fogo.
21. Folha do pinheiro.
22. Cume da cernelha do cavalo
Entre os medos a ultrapassar estava o terror das agulhas. Agulhas nas seringas, nos cateteres, nas recolhas de sangue  em todo o lado as agulhas estavam presentes para garantir que os medicamentos penetram no nosso corpo, que o sangue sai das veias e das artérias, que anestesias se fazem, que os soros estão onde devem, que as "perfusões" "perfusionam". A nossa ligação ao mundo exterior é feita em grande parte com o recursos a estes pequenos, picantes e penetrantes instrumentos, as agulhas. O meu medo das agulhas sempre foi grande, levando quase ao desmaio, não apenas quando são utilizadas em mim mesmo, mas também nos outros, mesmo quando observava na televisão alguém a utilizá-las. Era "epidérmico", uso subcutâneo, intramuscular, intravenoso, em diversas cambiantes, as agulhas sempre me atormentaram. Agora ía ter de me habituar sem reticências ao seu uso, sendo que agora até as aplico a mim mesmo, quando necessito de injectar a insulina.


Os primeiros tempos foram complicados. Todo eu tremia perante a expectativa de ser "picado". Procurava não olhar para não sentir. Depois pensava numa praia longínqua, no horizonte de um mar, numa praia, para que o meu espírito pairasse o mais longe possível,  do local onde a agulha e a veia se íam encontrar, qual ferrão de uma abelha. Tudo me atormentava, mas aos poucos habituei-me, e as picadelas sucediam-se todos os dias, em diversos locais do corpo, do pescoço, às virilhas, com os mais diversos pretextos, em veias, artérias, musculo, pele. Procurava não pensar muito no assunto evitava dramatizar e entregava-me de corpo e alma à imperiosa necessidade. Impunha  a mim mesmo, cerrava os dentes, fechava os olhos, o medo já não era da dor, que nalguns casos era pequena (mas nem sempe), pois cateteres nas mãos por exemplo, eram um suplício. mas parece que o medo era da própria agulha, e da perspectiva da sua utilização.

Acabei por ultrapassar, mas não aceitei nunca, ainda hoje, em que as picadelas escasseiam, os medos retornam, quando já nos esquecemos, quando já não estamos a contar, acabam por regressar quando parece que o inimigo já bateu em retirada as agulhas regressam e querem de novo tomar a iniciativa, quando me acham esquecido, distraído, de costas voltadas, quando parece que já me rendi.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Agradecimento


agradecimento
s. m.
1. Ato ou efeito de agradecer.
2. Expressão ou facto. que manifesta gratidão.

Mais tarde, após o transplante, a psicóloga do Hospital, a DrªN, falou-me da "necessidade do agradecimento", isto a propósito de uma relação diferente que estaria a estabelecer com a espiritualidade. Essa relação seria assim uma forma de agradecimento a Deus pela "dádiva" de um orgão que me salvara a vida. Não podendo agradecer à pessoa que me "cedeu" o orgão, ao dador de forma benévola, uma pessoa que acabou de perder a sua vida, e perdendo-a me salvou, agradeceria a uma entidade superior, a alguém que tornou tudo isto possível, isto é, alguém que armou a mão do homem com as técnicas adequadas a salvaguardar um coração da morte do seu possuidor, que colocou o corpo num local onde a retirada do coração foi possível, que permitiu o seu transporte e utilização atempada, o que permitiu que vivesse, apesar de tantas vicissitudes, tantas investidas da morte.

Há de facto muito para agradecer, a quem me deu apoio, visitou, me trouxe comida, ânimo e estímulo, e a todos os profissionais que me trataram. Mas ao "agradecer" a Deus estou a agradecer a todos, num acto único, até a mim mesmo por ter tido a coragem e a força que permitiu a sobrevivência.

Assim normal é que me aproxime desse "ser" superior, se tiver fé, ou de alguma entidade, ideia, pessoa, para mostrar esse reconhecimento, vontade de mostrar que valeu a pena o "sacrifício" de um outro ser que perdeu a sua vida, valeu a pena e foi bem aproveitado. Ao agradecer a Deus, ou a outros, estarei a justificar perante mim mesmo a atrocidade que ceifou a vida de outra pessoa desconhecida, a reparar, se é possível, esse dano, e assumir a melhor guarda para o orgão que me foi confiado, sem me pedirem nada em troca. Uma vida por uma vida, obrigado meu Deus pela oportubidade, é o que posso e quero dizer. Claro que a fé implica a crença nessa ideia maior, nesse ser superior, que tudo pode dar e retirar, decidir quem chama a si e quem salva, por um comando do destino sobre cada um de nós. Para além disso há ainda o simples agradecimento"terreno" às pessoas, aquelas que me trouxeram empadas, televisão, "phones", computador, companhia, palavras, livros, afectos, comida, hamburgers, roupa, sapatos, carícias, discussões, comversas, simples presença, amizade ou compreensão, tudo isso tem de ser agradecido, pela atitude, pelo retorno  e pela vontade.

Ao agradecer a Deus, Deus retorna em compreensão o nosso agradecimento, e vela para que seja capaz, esteja à altura de tomar conta o bem precioso que me confiou, dado que outro não teve essa benesse para que eu vivesse. Parece simples, parece evidente, mas nos momentos dificeis que irão surgir, será que sou capaz de manter essa coerência?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Alta


alta
(feminino de alto)
s. f.
1. Aumento no preço ou no valor. = SUBIDABAIXA, DESCIDA, QUEDA
2. Permissão para o doente sair do hospital.
3. Documento que contém essa permissão.
4. Regresso de um militar ao serviço depois de baixa ou de licença.
5. Zona de uma povoação, geralmente de uma cidade, mais elevada em relação ao que a circunda. (Geralmente com inicial maiúscula.)
6. Parte da sociedade considerada de maior categoria ou de maior prestígio.
7. Demora, paragem.parada.


Após aquele quase mês no quarto, a que chamavam enfermaria, o Dr RS, começou a dar sinais de que a minha estadia estaria perto do fim. O edema nas pernas e pés mantinha-se, embora com algumas melhorias devido ao efeito de doses altas de diuréticos, exercício, pés e pernas colocadas em posição elevada, o que me incomodava, particulermente a coluna. As dores, nesse particular eram muitas, e as pernas assumiam um peso de toneladas, seja pelo seu inchaço, seja pela sua incapacidade de servir de base de suporte ao torax, pois a ausência de massa muscular era aflitiva. O peso, e sobretudo o músculo, tinha-se volatilizado, e agora, segundo a fisioterapeuta demoraria muito tempo a recuperar, talvez até anos. A destruição é rápida, a recuperação muito lenta.

Mal, com alguns dias de antecedência, o Dr RS começou a pôr a hipótese de alta, sempre com poucas palavras, eu percebi que estava por dias. O regresso a casa implicava alguns cuidados, nomeadamente o controlo total da medicação, que estava adquirido, uma aprendizagem relativa à alimentação, nomeadamente o que poderia ingerir ou não, e a forma de confecionar para evitar contaminações, os cuidados com higiene pessoal, com a limpeza da casa, que deveria ser objecto de uma limpeza profunda antes do neu regresso, nomeadamente quarto e casas de banho. Os agentes contaminantes eram muitos, e estavam por todo o lado. Da alimentação falarei mais tarde. Foi-me cedida uma brochura onde a informação acerca de alguns hábitos, atitudes e recomendações, sobretudo para os primeiros tempos.

Veio a Drª RBM, que me explicou tudo acerca da forma de lidar com a minha nova "coqueluche", a diabetes, a fisioterapeuta explicou que poderia optar por fazer recuperação cardíaca ali em S. Marta, mas tal implicava permanecer em Lisboa, coisa que era dificil, e preferia regressar ao Alentejo, de que tinha saudades, e finalmente uma conversa com o Dr RS com uma longa lista de perguntas que fiz e às quais respondeu, como sempre, poupando as palavras, mas sendo claro. Por exemplo, o uso da máscara, era para mim algo que teria de esclarecer, pois não seria necessário andar sempre com ela, mas apenas em situações de risco mais acentuado, como idas ao hospital, um ninho de bactérias, centro de saúde, sempre muito infectados com virus da gripe e outra "bicharada", zonas comerciais, transportes colectivos, presença de pessoas com gripe ou outras infeções e apenas durante os primeiros meses. Aos poucos iria abrindo até o seu uso poder ser quase totalmente evitado.

Entretanto a MA ía trazendo a roupa que levaria para casa, pois naquela altura, com menos 23 quilos, nada me servia, tudo era enorme, e não valia sequer a pena comprar novas roupas, pois não sabia para já qual seria a evolução. Tudo requeria adaptação.

Por outro lado, após a alta, iria iniciar um processo de acompanhamento que, durante seis meses, seriam visitas semanais a S. Marta, um esforço físico, pessoal e financeiro excepcional, pois, por coincidência, foi nessa altura que terminaram os apoios aos transporte de doentes em ambulância, forma como das primeiras vezes viria, e a vinda a Lisboa iria custar ceca de 140 euros por semana, pois tinha-me associado dos bombeiros, e isto era "apenas" 50% do valor a pagar. A vinda de carro seria possível mas inviabilizou-se, pois a condução em Lisboa não agradava à MA, e de transporte público para já não.

Na data aprazada para a alta, a MA ficou em casa para preparar tudo, e pelas 15h os Bombeiros foram-me buscar a S.Marta. Estava pronto, vestido, o que me custou muito, tinha as coisas arrumadas, coisa de que se ocuparam as minhas filhas, e vim de cadeira de rodas para a ambulância. Não foi necessário a maca, tudo correu da melhor forma. Ajudado pelo bombeiro, sr F, acabei por subir para a ambulância, e fizemo-nos ao caminho. Era fim de tarde de um dia de sol de Janeiro, e há muito que não saía do Hospital. A expectativa era grande, começámos pelo trânsito do Marquês de Pombal, ponte 25 de Abril, A2 rumo a Sul, o mais desejado. Tinha feito o trajecto inverso, pelo mesmo caminho, no inicio do Outono, este tinha passado, e já estávamos a meio do Inverno. Saboreava todo o ar que me rodeava, era fresco, não o ar empestado do hospital, podia usufruir do simples acto de respirar, coisa que há muito não sucedia. Os olhos toldavam com a claridade, felizmente alguém se tinha lembrado de me enviar uns óculos de sol, pois não suportaria a luminosidade, habituado que estava à penumbra. O bombeiro dizia ter pensado que iria buscar alguém de maca, prostrado, e afinal tinha-se admirado, como após menos de um mês depois do transplante, estava de pé, andava, embora com dificuldade, e só a magreza e as pernas inchadas e passo atabalhoado, indicavam que tinha estado doente de forma grave.

A travessia do Alentejo fez-se de forma rápida e sem dificuldades, o verde estava por todo lado pois tinha sido um ano muito húmido, tinha-me apercebido disso durante os meses de espera, e a natureza explodia, sobretudo o Baixo Alentejo, onde os campos eram exuberantes.

Cheguei a casa pelas 18h. Ajudaram-me a sair da ambulância e lá me fui "arrastando" até casa. A MA tinha telefonado á minha médica de família, DrªAM, que veio passado algum tempo, com o enfermeiro S, para tentar desde logo organizar um plano para as próximas semanas. Havia pensos a fazer, que iam ser feitos em domicílio, pois nem pensar em qualquer deslocação ao Centro de Saúde, por enquanto. Havia fisioterapia a fazer, em casa nos primeiros tempos, para tentar melhorar o meu desempenho e mobilidade, estaria assim dependente dessas visitas e da MA para tudo o restante, pois estava proibido de conduzir no mínimo por seis meses, não viesse a ser destruida a sotura que tinha no peito, com algum impacto indesejado. Estava então numa dependência dos outros, e só me restava, ler, escrever, ver televisão, consultar o computador. Um pequeno conjunto de actividades simples das quais pouco passaria. Já estava reformado, dado o anterior nível de insuficiência cardíaca, e as complicações que entretanto ocorreram recomendavam que me mantivesse em "serviços mínimos". Escusado será dizer quanto tal situação me penalizava, mas apesar de tudo tinha sido possível o mais difícil, tinha salvaguardado a vida, contra todas as investidas da morte, e muitas foram. Deus não me queria ainda no meio do seus.

domingo, 23 de setembro de 2012

Anúncio


anúncio
(latim annuntium, -ii, que anuncia)
s. m.
1. Aviso ou notícia que se dá de alguma coisa. = COMUNICAÇÃO
2. Mensagem escrita ou audiovisual que promove determinado produto ou serviço nos principais meios de comunicação.
3. Sintoma, indício.

Tinham-me sempre dito que na altura do Natal é que é !!! Mantenha a calma, mantenha-se em bom estado, vivo, tenha esperança, no Natal, infelizmente para os outros, a disponibilidade de orgãos para transplante aumenta, e isso é uma nova esperança.

À medida que a data se aproximava a esperança aumentava. A partir da reentrada na lista de espera, após aquela infeção indesejada, a perspectiva de obter um novo coração alimentava o sonho de sair daquela cama..., para uma vida quase normal. Entretanto, a regra de que é preciso piorar para depois melhorar, estava de facto a cumprir-se. Eu sentia-me cada vez pior. A monitorização do meu ritmo cardíaco mostrava batimentos desordenados, por vezes tropeçava, caía e em dois ou três batimentos quase simultâneos, recuperava. O coração corria, e dava trambulhões... As complicações apareciam, mas íam-se resolvendo. Estava atento às notícias, com uma postura algo seráfica... Acidente junto ao Estádio Nacional com três mortos, acidente na nacional núnero tantos, dois feridos graves. Algo me dizia que a solução do meu problema estaria ligado a estas situações que se passavam um pouco por todo o lado, acentuadas no Natal. Segundo ouvira dizer o que importava não eram os mortos, pois destes que sucumbiam nas estradas não era possível aproveitar o coração que morria. Os feridos graves, que vinha a falecer no Hospital, sim, pois nesse caso era possivel controlar a morte cerebral, mantendo o coração vivo e em condições de ser doado. As condições climatéricas tinham sido severas nesse ano, a agravavam-se, tornando a situação nas nossas estradas mais perigosa, e os riscos maiores. Estranho, eu não desejava intimamente que ninguém morresse ou ficasse ferido, mas de qualquer forma sabemos que alguém vai ter de ficar ferido e morrer nas estradas, a julgar pelo histórico do tráfego. É uma fatalidade da qual eu poderei tirar partido. É estranho, é assim que as coisas são por mais que eu não quisesse. Claramente, a minha solução passava por ali.

Chegou a semana do Natal e a ansiedade aumentava. Algo poderia acontecer. Recordo-me que tinha estabelecido três objectivos, e o um deles era ter o transplante feito com sucesso até final do ano. Faltava pouco. Os dias iam decorrendo sem que os pudesse parar, sem esperas, todos os  dias contavam, todos tinham o mesmo valor. Chega-se a véspera de Natal, a consoada com as minhas filhas, e a consoada solitária da MA e  nada acontece. A mesa de cabeceira serviu de mesa de consoada, o bacalhau não faltou, trazido pelas filhas bem como o bolo rei.

Durante o dia olhava para a porta e para o relógio que a encimava, e a notícia que esperava jamais entrava por ela. Pensei que talvez o momento fosse o Ano Novo. Afinal o meu "objectivo" não seria verdadeiramente um objectivo mas sim um desejo. O dia de Natal passou-se, a MA veio ao almoço, ficou para a tarde, e também para o dia seguinte, 26 de dezembro. Suavizou-se alguma da ansiedade. Nesse dia a MA almoçou comigo e partiu para regressar a casa no autocarro das 15h15. Deixou-me por volta das duas horas, quando terminava a visita,  saiu. Passado algum tempo pela porta para onde a esperança estava sempre virada, entra o Dr RS e diz-me de forma calma, quase a medo, "há uma possibilidade de termos orgão disponível, mas ainda há testes a fazer, para saber da compatibilidade". A partir dagora não comia mais nada, e os enfermeiros ocupar-se-iam da preparação para a cirurgia. "Quando houver noticias definitivas eu informo, talvez no final da tarde já se saiba, entretanto convém estar preparado".

Era assim que no inicio me tinha sido dito que tudo se passaria.Seria feito um anúncio, mas este poderia ser um "falso alarme", tinha no entanto de me preparar como se fosse real. Se, após os testes, entre o sangue que já me tinha sido retirado para o efeito, e o do dador, ainda antes de ser recolhido o orgão para transplante, poderia ser clarificada a possibilidade da cirurgia.

Agora tinha pela frente três ou quatro horas de espera, que poderia terminar com uma de duas respostas: sim ou não ! Se fosse sim subiria para a cirurgia, se fosse não teria de esperar nova oportunidade.
De imediato começou a preparação. Não tive sequer tempo para pensar. Foi retirado mais sangue, e de seguida fui tomar banho completo, com um produto desinfectante. Retiram as pilosidades na região a operar, fiz  necessidades fisiológicas, com a ajuda de um clister. Fui pesado e tinha 60 kg, teria assim perdido 23 kg desde o inicio da "crise", em cerca de 6 meses. Fui vestido apenas com uma túnica verde, muito leve, em teflon, e colocaram-me um barrete na cabeça, do mesmo produto, e estava totalmente preparado para passar a tarde, até vir a resposta definitiva.

Não me sentia mais ansioso, receoso ou com medo. Acreditava na cirurgia e no seu sucesso. Apareceu a anestesista para que assinasse uns papéis e responder a algumas perguntas. Autorizar a operação, a anestesia, transfusão. Surgiu também um médico, com um grande capote pelas costas e barba por fazer para trocar algumas impressões comigo. Percebi que ía fazer parte da equipa que ía realizar a operação, se houvesse operação. Era domingo, provavelmente estaria em casa, à lareira, estava frio, e tinha sido chamado.
Em menos de uma hora tudo foi tratado, e agora era esperar. Os enfermeiros, auxiliares e médicos de serviço vinham despedir-se e desejar sorte. Era também uma grande alegria para eles terem sido capazes de me manter vivo, e terem-mea feito chegar a este dia. Torciam por mim. Estvamos a ter o retorno da esperança. Por mim deitei-me e procurei dormir de cabeça tapada, ouvi música, e esperei.

Já tinha feito os telefonemas necessários, e só esses, três ou quatro pessoas próximas, e coloquei um post no meu blog a dizer aos vindouros que por lá passassem que se deixasse de aparecer, era porque tinha sido operado e corria bem, e só dentro de algum tempo iria reaparecer. As minhas filhas vieram para arrumar as minhas coisas e levar todo o material que tinha sido usado para me ocupar a cabeça.  O livros,  a TV, computador, iPod, telemóvel, roupa, bolachas, cadernos, medicamentos, sapatos, tudo ficou arrumado para sair (ou não). de uma forma ou de outra poderia já não regressar àquele local, embora arriscasse manter.me por ali. Por isso esperaram até que a noticia chegasse de forma definitiva. E não demorou.

Pelas seis da tarde um outro médico da própria unidade chegou junto de mim e informou-me que o Dr RS tinha telefonado, não viria pessoalmente, para me dizer que a resposta era positiva., pelo que a cirurgia ía avançar, e muito em breve ía ser transferido para o bloco operatório.

O sentimento foi de um grande alívio, a excitação aumentou, jamais senti medo de que algo não corresse bem. Era como se tivesse sido fechado numa cerca durante meses e de repente uma porta se abria, teria de percorrer um caminho, mas mesmo que estivesse rodeado de leões eu correria por ele sem hesitar, pois não havia outra saída e a cerca onde estava fechado já ruía um pouco por todo o lado.

Finalmente a espera terminara e o momento das decisões chegara. Ía mesmo receber um novo orgão, vital para sobreviver. Vinha de S. Maria, foi a única informação que obtive.  Passados poucos minutos os auxiliares removeram a cama saí pela porta por onde a notícia tinha entrado, era a porta da esperança, que me tinha alimentado o sonho durante muitos meses. No corredores enfermeiros, auxiliares, e até as funcionárias da ICA ( que me serviam as refeições e me chamavam de "pisco", pelo pouco que comia ), vieram ver a minha saída e desejar sorte. Foram os meus 15 minutos de fama... As minhas filhas acompanharam até à porta do bloco operatório, situado no 3º andar. Para lá subi no elevador, e fui reebido pelo pessoal que se ía ocupar da cirurgia. Mudei para uma maca mais adequada ao acto, alguém falava, faziam-me algumas perguntas, respondia a quem podia, entrou a anestesista, a mesma que tinha visto horas antes, nessa tarde, e que agora me picou no braço, até que em segundos tudo desapareceu. Um apagão geral.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Atividade



atividade
(latim activitas, -atis, significação .ativa [do verbo])

1. Qualidade do que é ativo..INATIVIDADE
2. Faculdade de exercer a ação.
3. Exercício ou aplicação dessa capacidade (ex.: .atividade física).
4. [Figurado]   Prontidão, rapidez.
5. [Figurado]   Vigor, energia..INATIVIDADE, INÉRCIA
6. Ocupação profissional. = PROFISSÃO
7. Realização de uma função ou operação específica (ex.: atividade industrial).
8. Funcionamento, laboração (ex.: a fábrica já não está em atividade).
9. Fenómeno. ou processo natural (ex.: atividade sísmica).

s. f
Muita coisa tinha mudado na vida, na sequência deste processo. O impacto tinha sido o de uma bomba, que tivesse sido lançada para o meio de um armazém de loiça, transformando tudo em cacos. Desde logo a actividade profissional. Passei, na sequência da insuficiência cardíaca grave, a ter condições para uma aposentação por incapacidade. Na realidade, os limites que o coração agora impunha eram incompatíveis com uma atividade dita "normal", pelo que a passagem à reforma acabou mesmo por se concretizar. Passei a fazer parte dos reformados, o que, reconheço, talvez tenha sido o menos mau. Mantinha alguma atividade não remunerada, para me manter ativo.
Retomei um sonho antigo, a pintura. A partir de Setembro de 2008 comecei a frequentar as aulas de pintura., e a pintar e desenhar, o que naturalmente me dava prazer, pois era algo que gostava de fazer. Um ano depois, em Setembro de 2009, vinha mesmo a ter a ousadia de fazer uma exposição pública dos quadros entretanto feitos, o que para mim foi um enorme feito. A vida ía tomando assim outros rumos enquanto o coração o permitisse. Na realidade muita coisa havia mudado, inclundo na relação pessoal ou até familiar. Tudo agora girava à volta daquilo que o meu coração permitia, e o ritmo não podia ser mais intenso do que aquilo que me era possível. Em Novembro de 2007, ainda fomos duas vezes ao estrangeiro, a Londres, onde assisti a um espectáculo no Royal Albert Hall, pela primeira vez, e a Madrid, onde vimos a exposição de Paula Rego, no Museu Rainha Sofia. A partir daí não voltámos a sair do país, e aquela ida lá fora, que fazíamos todos os anos foi sendo sucessivamente adiada. A atividade ia-se reduzindo a tarefas mais ou menos rotineiras, e o lugar para o fora de hábito ía-se reduzindo sistemtaticamente.
 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Acessório

acessório
(latim tardio *accessorius, -a, -um, do latim accedo, -ere, ir para, aproximar-se, colocar-se ao lado de, aderir)
Confrontar: assessório.
adj.
1. Que se junta ou incorpora por acessão.
2. Que se pode dispensar. = SECUNDÁRIOESSENCIAL, FUNDAMENTAL, INDISPENSÁVEL
3. Que não é muito importante.

4. O que está junto a coisa principal. = COMPLEMENTO
5. Circunstância acidental.
6. Peça que completa ou melhora o funcionamento de algo.
7. Peça ou adorno que se acrescenta ao vestuário.

s. m.




E cá estava de novo, oito dias depois de ter alta, regressava aos mesmos cuidados intensivos, na mesma cama, os mesmos fios, os mesmos alarmes, os mesmos enfermeiros, os mesmos cuidados, os mesmos sonhos, e a mesma música de fundo. Ainda sentia os restos da operação, os seus sintomas e os seus limites.
Agora conhecia novos médicos, os Dr NS e MO, os tais arritmologistas. Consultaram-me logo na segunda feira e colocaram a hipótese de, por razões de segurança de vida, me implantarem um acessório chamado CDI ( cardio disfibrilhador implantável) o qual seria assim um espécie de seguro de vida. Perante uma arritmia com determinadas características, o aparelho disparava um choque eléctrico em corrente contínua de entre 300 a 1000 volts, o que provoca a reanimação, não sem antes tentar reverter a arritmia. Um aparelho "inteligente".

Para fazer o implante seriam necessários mais exames, e entre eles estava o esclarecimento de uma dúvida, se teria acumulado liquido na pleura, coisa que vinha do pós operatório, mas que dividia a opinião de dois os três médicos. Assim fiz uma TAC para esclarecer de uma vez por todas o problema. Sem isso não haveria implante.

A TAC falou como um livro aberto; era mesmo líquido acumulado, e que teria de ser removido para que o implante do CDI se fizesse sem problemas. E asssim se fez. esperei mais alguns dias, até que finalmente se marcou um dia em a remoção seria feita por um cirurgião. No dia aprazado esperei o dia inteiro em jejum, esperando que a intervenção se fizesse. Era ali, nos cuidados intermédios onde agora já estava, que a "coisa" se faria. Simples, segundo o enfermeiro, mas obrigou a um dia inteiro de jejum e uma muito longa espera. A pequena intervenção seria feita pelo cirurgião (o Dr PC), apoiado por um enfermeiro, o M, . Quando lhe pareceu "pôs a mesa", numa das mesas de apoio, com toda a parafrenália necessária. Umas agulhas, tubos, sacos, bisturis, e outras coisas. Os meus nervos estavam em franja, por muito que o enfermeiro me dissesse que não iria doer, para me aclmar. E tantas vezes mo disse que comecei a desconfiar. As horas passavam e só lá pelas 8 da noite o cirurgião apareceu. A minha fome era de lobo, mas queria "despachar-me", ficar livre de mais este impedimento. E assim se fez aquilo que eu chamei " a mais dolorosa pequena intervenção que fiz".

Em palavras simples, primeiro mandou-me sentar numa cadeira "ao contrário" e agarrar-me bem às costas da cadeira. Tirar o casaco de pijama. Senti um frio nas costas, de um desinfectante a passar. "Uma picadela" de uma anestesia anunciada pelo Dr PC. A anestesia era local, muito localizada, para evitar a dor do corte a fazer. Corte feito, punção, e eis que um tubo de plástico começa a ser introduzido pela punção feita. Uma ação altamente invasiva... que percorre o interior do meu corpo, das costas até à zona abdominal. Até aqui tudo bem. Agora era fazer a sucção. Através do tubo ía sendo aspirado o líquido, e cada aspiradela a dor que se sentia era indiscritível. Várias sucções foram feitas, o enfermeiro agarrava-me as mãos com toda a força e dizia "força", "calma", e os meus olhos enchiam-se de lágrimas. No fundo era tudo a sangue frio, e a dor era intensa,  no limite do suportável. E nunca mais acabava, porque o médico aspirava o líquido com muita cautela e muito devagarinho, quanto mais rápido mais dor. Terminou tudo, e eu estava exausto de tanto sofrimento. Jamais tinha sentido algo tão intenso, assim sem anestesia. No final cerca de um litro e meio de líquido retirado. Olhei e não queria acreditar. Concluida esta operação estavam criadas as condições para me fazerem o implante do CDI.

O aparelho era pequeno, assim como uma caixa de comprimidos, redonda, metálica, com alguns fios a sair. Aprazou-se a operação para um final de tarde de uma sexta feira. Haveria que abrir um bolso no peito, e lá colocar o aparelho e ligá-lo a uma sonda no interior do coração que iria detectar a arritmia. A operação foi feita primeiro com anestesia local na região frontal do pescoço. Aberto o "bolso", era colocado o aparelho, e ligados os respectivos fios. Tudo ligado havia que testar o funcionamento do aparelho simulando uma arritmia. Foi-me dada então uma anestesia geral, embora ligeira, para a simulação e eu nem senti o tal "coice de cavalo", como me foi descrito, que corresponde ao choque eléctrico de alta intensidade no peito. Não o senti mas o choque deu-se mesmo, e ao acordar, o Dr MO disse que tudo estava bem e agora havia apenas que recuperar a zona que tinha sido fechada com vários pontos. Para já o braço esquerdo estava imobilizado, não o poderia mexer, e mais tarde levantar, durante uma ou duas semanas. Depois disso tudo bem, só teria de fazer nova intervenção para mudar a pilha do "acessório" que agora tinha. Mas isso poderia demorar seis ou sete anos.

Regressado aos cuidados intermédios no dia seguinte seguiria para a enfermaria de cardiologia e no inicio de Maio estava de novo em casa com o meu novo "acessório". Estava agora preparado para fazer face à arritmia, e dispunha de algo que me podia salvar nas situações mais criticas, como depois aconteceu.
Os cerca de 30 000 euros que, dizem, o CDI custa, salvou-me a vida diversas vezes, todas aquelas em que a arritmia me atacou.
Era mais um passo e após dois meses de confusões, emoções e muitas convulsões, estava agora em casa, esperançado num futuro mais risonho.

Arritmia

arritmia
(grego arrutmía, -as, falta de ritmo ou de proporção)  s.f.
1. Falta de ritmo.
2. Irregularidade nos batimentos cardíacos ou na pulsação (ex.: arritmia cardíaca).EURITMIA




No regresso a casa tive todo o apoio. Da MA, da Drª AM, do S, enfermeiro do Centro de Saúde. Havia pensos a fazer, pontos para retirar, e as dores no peito limitavam muito os movimentos. Estava bem sentado, mas na cama as coisas não eram fáceis. Uma volta na cama, uma mudança de posição muito dolorosa, e era uma verdadeira aventura. A cicatriz ainda estava fresca, e o externo tinha sido, primeiro fracturado, depois aberto para efeito da operação.

Em Ourique tinha todo o apoio necessário, e sentia que recuperava dos piores momentos. Não podia conduzir, por enquanto, e  os dias da semana passavam devagar. Tudo era lento mas recuperava. Sabia que no dia 14 de Abril, sábado seguinte a MA iria fazer o lançamento de um livro que tinha escrito com a CC, na Editora Piaget, a partir de uma série de trabalhos de alunos.  Isso implicava deslocar-me ao Algarve, pois tal decorreria na Biblioteca de Lagoa.

Tomava a medicação, que incluia medicação para a tensão e para controlar as arritmias. As coisa estava a andar e cada dia melhorava. No dia 13 nascia o João Miguel, e no sábado 14 fomos para o Algarve para a sessão de lançamento que decorria na Biblioteca de Lagoa.. A MA pos-se a preceito, a FL faria a apresentação do livro, e depois seria a sessão de autógrafos. Na sessão estava muita gente. Os alunos, que tinham participado com os seus trabalhos, estavam em grande parte presentes, tendo alguns deles vindo de longe. Também estavam professores de escolas onde os trabalhos tinham decorrido, nomeadamente de Silves, eu próprio lá estava num cantinho, muito fragilizado, mas feliz por estar a aultrapassar esta fase.

Tudo correu muito bem, os discursos, o rever de pessoas que se preocuparam comigo, a MA estava, como seria de prever, a rebentar de vaidade, parecia um dia perfeito. A apresentação havia de ser seguida de um jantar, no restaurante Ciclo, em Lagoa, pois o retaurante habitual dos eventos da Câmara, o Lotus, estva encerrado, por um motivo excecional qualquer.

E assim foi. sentá-mo-nos na mesa, onde para além de mim e a MA, estava a FL, a CA e a CC com o marido.A conversa fluía sem problema, embora eu me sentisse muito frágil e sem grande "força de vontade". A mim coube-me encomendar "chateaubriant", isto é uma posta de carne mal passada e suculenta. Ao começar a comer apenas senti uma tontura, a mesma do dia do "pastel de nata". E o silêncio.

Acordei no chão, "Sr Carlos Sr Carlos..." , muita gente de volta, as mesas do restaurante desarrumadas, e ao que parece, segundo me contaram, uma forte arritmia, seguida de paragem cardio repiratória. Nada mais, nada menos !!! O 112 já lá estava quando acordei. Tinha desmaiado, caído no chão, alguém terá gritado "Hà algum médico na sala !!!" e havia não um, mas três, e uma delas uma  anestesista de S. Marta. Que coincidência. Com a calma de médico fizeram a reanimação, com masagem cardíaca, enquanto o INEM era chamado, tendo chegado dez minutos depois. Nesse momento já estava reanimado, embora desorientado, sem ter o verdadeiro sentido daquilo que se tinha passado. Transferiram-me para o Hospital de Portimão. Tinha sido uma enorme confusão, apenas me lembro da ambulância naquela rua, as luzes intermitentes a piscar, as pessoas a espreitar nas janelas, já era noite, e viam o que se passava.

Dei entrada em Portimão já depois das 8 ou 9 da noite. A urgência estava cheia como um ovo, mas lá me arranjaram um lugar num cantinho mais protegido, pois estava muito debilitado. Cardiologia não existia por ali. Entretanto a MA fazia os contactos habituais, Drª AM, Drª MJ, que recomendaram a transferência para S. Marta. A noite passou-se mal; despiram-me, colocaram-me uma bata, picaram-me com um cateter, tiraram sangue, tive de contar a minha história, com o ânimo  que pude. Mal dormi a noite. Sei que a MA também não. Tudo era complicado, dificil, a história ia-se repetir. Agora que pensava que tudo estava passado, voltava ao ponto zero !

De manhã muito cedo foi-me dito que iria ser transferido para para Lisboa, S. Marta de novo. Assim foi, uma ambulância de Silves levou-me, a MA, lembro-me de a ver à porta do Hospital, depois iria ter comigo, mais tarde. Cheguei a Lisboa por volta do meio dia, entrei nos mesmos cuidados intensivos, de onde tinha saído para a operação, fui posto na mesma cama onde tinha estado cerca de um mês antes. Os mesmos fios, cateteres, tubos, os mesmos enfermeiros, médicos, a mesma música de fundo e os mesmos alarmes. A amiodarona a escorrer para a minha veia, a corroer. Lá estava de novo. Nova odisseia, e uma nova fase. Já tinha sido operado, e tinha tido alta há cerca de uma semana, mas entrava de novo no hospuital. O que fariam desta vez, como alterariam o curso deste destino que parecia querer puxar-me para baixo, cada vez mais para baixo ? O que seria agora de mim ? Haveria mais a fazer que não tivesse sido já feito ? Entretanto era domingo, só no dia seguinte poderia ser visto pelo médico, um especialista em arritmologia. Depois decidiria. Agora só restava esperar e passar o melhor possivel. Ao final da tarde ainda veio a MA. Tinha vindo do Algarve de novo para me acompanhar.