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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Lustro



lustro 
substantivo masculino
1. Período de cinco anos.
2. Polimento.
3. [Portugal: Trás-os-Montes]  Relâmpago.

Passaram no passado dia 26 de Dezembro cinco anos sobre a data do meu transplante cardíaco. Cinco anos parece uma eternidade, Segundo li a sobrevida média dos transplantados cardíacos situava-se nos 13 anos em 2010, ano até ao qual tinham sido feitos 558 transplantes em Portugal, hoje penso que iremos para os 700. A sobrevida aos 5 anos que era de 66% há alguns anos hoje situa~se nos 73%, dados de Espanha onde terão sido feitos cerca de 6500 transplantes cardíacos. Assim estou dentro da normalidade, ou seja não faço parte dos 27% que morreram antes dos 5 anos, e para a média ainda tenho 8 anos de vida, sendo que com os meus 63 anos as estatisticas dizem que poderei morrer aos 71 anos. Dado que a esperança de vida dos homens em Portugal é de 77 anos, afinal a fazer fé nas médias só perderei 6 anos relativamente aos "macho latino médio português". Isto se valorizar apenas a morte. Mas há algo que já ninguém me tira, o sofrimento, e a vida feita "em serviços mínimos". Passaram 5 anos e tantas coisas ocorreram quase todas com uma relação directa ou indirecta com os "estranhos acontecimentos" de 2010 que hoje aqui evoco. As memórias destes cinco anos valerão tantos como as dos 4 que antecederam o transplante, e os acontecimentos passam por 3 internamentos, algumas infeções, um divórcio, um acidente de ambulância, uma total dependência de medicamentos, perda de qualidade de vida, deslocações periódicas ao hospital e centro de saúde, despesas médicas. desânimo por vezes, sofrimentos, muito, solidão, alguma, mas acabo por conservar ainda uma coisa que é insubstituível, a vida, como Deus a deu. Vou retomar este blog para relatar essa experiência.

sábado, 27 de outubro de 2012

Luz


luz
(latim lux, lucis)
s. f.
1. O que, iluminando os .objetos os torna visíveis.
2. Candeeiro, lâmpada, vela ou outra coisa acesa.
3. Efeitos de luz em quadro, fotografia ou outra representação.
4. O que ilumina o espírito. = CLARIDADE
5. Claridade de um astro. = DIA
6. Brilho, fulgor.
7. Critério.
8. Evidência.
9. Ilustração.
10. Publicidade.

Uma das coisas que mais me incomodava durante os diversos internamentos é a luz. Habituado a ambientes mais sombrios e à escuridão durante a noite a luz incomoda-me e impede o descanso. Ali havia sempre pretexto para manter a luz acesa. Ou por necessidade, descuido ou esquecimento. As luzes no tecto, em cima dos olhos, quando deitado, ou a luz no corredor que não podia ser desligada durante a noite. A luz individual, por cima da cabeceira da cama, ainda a que menos incomodava.

Havia sempre pretexto para manter a luz acesa, ou porque um doente ía ser transferido, ou porque se aguardava um doente que ía chegar, ou porque "não se vê nada", ou porque as luzes "se estão lá é porque são precisas".

Durante a noite a claridade na UCI era total e só conseguia dormir com umas vendas nos olhos o que ajuda muito as pessoas que têm grande sensibilidade à luz, ou têm dificuldade em dormir com luz, é o meu caso. Nas enfermarias era um pouco diferente, as luzes eram apagadas por volta das 23 horas e, a partir daí, o sono podia tomar conta de mim em geral "ajudado" por um comprimido para dormir.

Mesmo durante o dia é hábito manter difusores com quatro tubos fluorescentes acesos, e durante algum tempo tive de suportar nos olhos essa catadupa de luz, pois não era capaz de me levantar para as apagar.
A pouco e pouco, com a minha insistência, com os meus pedidos, todos foram percebendo o quanto me incomodavam as luzes acesas, e como ser um pouco mais exigente nesse aspecto tornava a minha "estadia" um pouco mais confortável. e, uma vez explicado, com insistência mas com educação e simpatia, acabamos por conseguir o que queremos, quando os pedidos têm bom senso e são de facto razoáveis.

A minha "guerra" com a luz acabou por ser ganha. Mas tive de fazer muitas adaptações, pois havia coisas impossíveis de fazer. Por exemplo, o corredor da UCIC ficava com as luzes acesas toda a noite, porque sendo apenas um único circuito, ou se mantinham as luzes todas acesas, ou pelo contrário teriam de apagar tudo, coisa não aceitável numa unidade como aquela. Assim a claridade só podia ser diminuida com as minhas vendas nos olhos.

É a luz que nos impede de ver, impede de dormir, a luz que não nos deixa observar "por dentro", que nos deixa despertos, pensamentos em estado de alerta, quando o que pretendia era exactamente o contrário disso, o descanso, o esquecimento de mim, esperar sem "medir" o tempo que passa.
Foi assim uma batalha contra a luz, uma batalha pelo lusco-fusco, que não pela escuridão. Tudo acabei por aceitar como me foi apresentado, mas procurando, com todo o cuidado, o melhor e maior conforto, pois sabia que ía por ali passar bastante tempo, um tempo que eu não saberia estimar.

Hoje, que se fala tanto em redução de custos, em poupar, veja este problema com outros olhos. Na realidade muito se poderia poupar com um pouco mais de atenção às luzes acesas totalmente inúteis. Mais poupança e mais conforto, pois muitos doentes queixavam-se do mesmo que eu, e referiam a incomodidade nos olhos causado pelo excesso de luz, e quanto interferia com a vista, pois estavam como eu próprio, muitas horas na cama, de costas, com os olhos pregados no tecto.