segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Enfermaria


enfermaria
s. f.
Nalguns estabelecimentos, local onde se instalam os doentes ou se atendem os feridos ou lesionados.

Após os dez dias de isolamento estava finalmente na "enfermaria". Na realidade não se tratava de uma enfermaria, onde mais tarde haveria de estar, mas por agora tratava-se de um quarto. Acontece que em S. Marta não há quartos particulares, e estes dois quartos disponíveis na enfermaria de cirurgia cardio toráxica, apenas se destinavam a alojar transplantados nesta fase, para que não saiam directamente do isolamento para o meio dos restantes doentes, dado o risco permanente de contaminação.

Foi assim que fiquei alojado num quarto simples, com uma casa de banho privativa, duas mesas, uma cadeira e um cadeirão e um armário de lata para além da cama articulada.  Foi colocada uma televisão. Num primeiro momento a minha sensação era de "peixe fora de água". Tinha liberdade, estava desligado de todas aquelas máquinas, mas por manifesta incapacidade não sabia que fazer com essa liberdade. Mexia-me com dificuldade, e os movimentos mais simples implicavam apoio, mas agora ía ficar sózinho, sem o enfermeiro a olhar por mim 24 sobre 24. Em caso de necessidade teria de chamar alguém.

Naquele quarto a porta estava sempre fechada, das janelas nada se via, pois tinham sido seladas e colada uma película fosca nos vidros. Até o espelho da casa de banho tinha sido retirado. Teriam medo de que os pacientes se suicidassem ?...

Quando a porta se abria, quem entrava tinha de colocar uma máscara, e eu não podia por enquanto sair. Só uma visita de cada vez. A arrumação das minhas coisas foi feita com alguma dificuldade, tudo parecia estranho, sem lugar, eu próprio, tendia para estar na cama, único local óbvio para estar, embora me pudesse levantar. Começa agora a reaprender a movimentar-me por mim, coisa que já há algum tempo não sucedia.

Tinha agora em cima da mesa uma coleção de caixinhas cilindricas com tampa vermelha, onde se encontravam cada um dos inúmeros medicamentos que teria de tomar a partir de agora. Tomar conta dessa medicação, prepará-la, tomá-la a tempo e horas, seria uma das minhas tarefas, a que tinha a partir de agora de me habituar. Aproveitar para actualizar os meus registos, que tinham sido interrompidos durante o período de isolamento. Entretanto começava a ter os primeiros sintomas pós transplante: tinha apanhado um "herpes labial", um virus oportunista que viera comigo do isolamento, começava a ter fortes sinais de edema, com as pernas e pés muito inchados, desde as virilhas até á ponta dos dedos dos pés, o que dificultava pôr os pés no chão e andar, pois estes pesavam "toneladas". Por sugestão do pessoal, passava muito tempo com os pés levantados, e mesmo na cama, dormia com os pés mais altos. Reforçaram as doses de diuréticos, com pouco resultado. Muitos meses depois ainda teria o edema embora fosse regredindo. Os pés elevados, acabei por pagar a factura com a degradação da minha coluna, que me doía muito, e ainda hoje, mais de ano e meio depois continua a perturbar-me.

Voltar


voltar - Conjugar
v. tr.

1. Dar volta a, volver, virar; pôr do avesso.
2. Mostrar ou apresentar pelo lado ou face oposta.
3. Dar em troco.
v. intr.
4. Regressar.
5. Tornar a vir.
6. Reaparecer, tornar.
7. Replicar, responder; dar volta ou voltas; tornar a fazer.
8. Mudar de rumo.
9. Fermentar segunda vez; toldar-se, turvar-se.
10. Retroceder.
11. Reincidir.
v. pron.
12. Virar-se, apresentar a cara a quem vem ao lado ou atrás.
13. Dirigir-se, recorrer.
14. Revolver-se, virar-se; dar voltas (na cama); investir, acometer.

Tinha agora voltado ao inicio de um percurso que me conduziria, não se sabe onde. Tinha sido retirada a ventilação, e aos poucos iriam sendo retirados tubos, sondas, algália. Muita coisa mudava. Desde logo a medicação. Eu deixara de ser um doente cardíaco no sentido habitual, terminava a medicação para a tensão, para as arritmias, para estimular o coração, e no seu lugar apareciam agora outros "pesos pesados", como a ciclosporina, um imunosupressor, que tomava dosesndo com uma pipeta uns miligramas para dentro de um copo terapeutico, onde era misturado com sumo compal, para disfarçar o seu sabor insuportável. Tomava ainda um segundo imunosupressor, o micofenelato. Seguiam-se corticóides em dose de cavalo, analgésicos, insulina, pois a partir de agora ía fazer parte do grupo dos diabéticos insulinodependentes, anti virais, entre outros.

A minha entrada em isolamento deu-se a 27 de Dezembro e lá permaneci cerca de dez dias, afinal coisa pouca, pois sempre me preparara para um mês o mínimo. De facto um companhiro, no quarto ao lado, já lá se encontraca há três meses, e ainda por lá ficou muitos mais, mas eram casos em que as complicações se sucedem, sem ser possível dominá-las de forma eficaz.

Agora respirava normalmente, sem apoio, o que era muito bom, pois a ventilação forçada atrapalha,  causa um grande mal estar, além de impedir falar, beber e comer normalmente. E a evolução foi-se dando. Primeira vitória, virar-me na cama, sózinho. Depois de ajeitar cuidadosamente os fios e os tubos, para posição mais adequada, dar um impulso, suportar a dor, e voltar-me. Isto aconteceu ao fim de dois dias. A primeira saída da cama, para o cadeirão, ainda no isolamento. Ao fim de dois ou três dias, e o tempo no cadeirão foi aumentando gradualmente, movimentos sempre com o apoio do enfermeiro que tomava conta de mim 24 sobre 24. Pôr-me de pé, agarrado ao enfermeiro, à cama e à cadeira, dar alguns passos. Desde logo se notava a melhoria que o novo coração trazia. Nunca coisa simples, o falar. Antes quase não conseguia falar, ao longo do dia ía perdendo a voz, à noite nem falava ao telefone, pois o esforço já não era tolerável, agora a minha voz voltava pouco a pouco.

As visitas decorriam nos mesmos horários da UCIC. A diferença estava "apenas"na necessidade destas se equiparem a preceito, com máscara, toca, túnica protectora, e quer o paciente quer a visita lavarem as mãos com desinfectante para se poderem tocar sem risco de contaminação. Os dias passavam, por vezes os enfermeiros falavam comigo e davam umm retorno de informação, que permitia ir-me apercebendo do evoluir, e quão perto ou longe me encontrava da data em que abandonaria aquele local, que mais parecia um aquário, onde um único peixe nadava, isolado mas seguro. Do lado de fora passava um corredor, onde reconhecia pessoal da UCIC, onde tinha estado tantos meses, que vinha dizer-me adeus, ver se tinha mesmo sobrevivido, mas em geral não entravam. Sabiam que quanto menos visitas melhor. Numa das vezes um grupo de enfermeiros, a Célia entre outros, vieram e encostaram um papel junto da vidraça onde estava escrito "Boa Sorte Melhoras !!!". O pessoal era inexcedível e torcia por mim. As coisas pareciam agora estar a virar, e voltaria decerto a viver.

Como sempre Dr RS, parco em palavras, não dava indicações de datas. Apenas ao fim de sete ou oito dias começou a dizer que as coisas estavam bem, prudente, e que talvez saísse dali em breve. Fiquei admirado com a rapidez do processo.

Um dos pontos que dificultava era a comida, empapada, sem sabor, e sobreaquecida, mas aos poucos habituei-me. Tinha mesmo de comer, como se de um medicamento se tratasse, pois tinha emagrecido muito, perdido massa muscular o que iria perturbar a recuperação física, nomeadamente o andar, que era ainda impossível. Quanto à saída esta dependeria como sempre de não ter "intercorrências" e de me autonomizar daquelas máquinas a que estava ligado. No dia em que delas me libertasse, a saída estava próxima, pois o choque com o exterior seria importante para testar a minha resistência às agressões dos agentes patogénicos, que espreitavam por todo o lado. Ali dentro eram mantidos "na ordem". Mas o desligar das máquinas era gradual, todos os dias tiravam uma coisa, uma sonda, um tubo, um cateter, uma algália, um fio, um saco, enfim, ía ficando liberto das peias.

Tudo ficou claro no dia em que o Dr RS me disse "amanhã sai para a enfermaria". O Dr RS era assim, só falava com base em certezas. Não corria risco de alimentar falsas expectativas, que para estes doentes era o pior, pois havia tantas possibilidades de tudo correr mal inesperadamente.

Nesse dia fui tomar banho, o primeiro na casa de banho, no exterior, desde o transplante, tinham passado dez dias. Até aqui tinham sido "banhos de gato". Foi um banho sentado num banco, e com ida e vinda em cadeira de rodas, não valia a pena desperdiçar energia. Tudo pronto, arrumadas as coisas, e fui transferido para a enfermaria, deixando de vez aquele local onde tinha passado os primeiros dias, pós transplante, onde passara a passagem de ano de 2010 para 2011, ouvindo os "foguetes" no exterior e o simples "reveillon" feito pelos enfermeiros, médicos e auxiliares, no corredor, onde não pude participar, claro.

O isolamento tinha sido muito mais "benigno" e limitado no tempo do que jamais tinha imaginado, e a partir de agora, começava a viver uma vida mais próxima da realidade, menos protegido, não estaria mais no aquário, como um animal em vias de extinção, protegido de um mundo agressivo, mas começaria o caminho da desejada autonomia. Ao final da manhã do dia 5 de Janeiro 2011, levaram-me para a "enfermaria", que afinal era um quarto !!!

domingo, 23 de setembro de 2012

Isolamento


isolamento
(isolar + -mento)
s. m.
1. Ato de isolar ou de se isolar. = ISOLAÇÃO
2. Estado de pessoa ou coisa isolada. = ISOLAÇÃO
3. Separação completa.
4. Solidão.

Após a realização da cirurgia, já sabia que teria de ficar em isolamento durante um período de tempo incerto, o que dependeria da minha reação e das eventuais "intercorrências". Antes da operação imaginava algo ainda mais complicado, pois não fui visitar o local préviamente, por manifesta incapacidade de me deslocar. Se o tivese feito, e recomendo que se faça, talvez ficasse mais consciente do que se iria passar, e teria sido melhor.

Em S. Marta há três locais de isolamento, três quartos de dimensões generosas, equipados com toda a instrumentação necessária para o suporte de vida, com o material necessário ao qual os pacientes estão ligados para monitorização dos parâmetros, medicação, alimentação, entre outras funções. Os inevitáveis alarmes lá estão em permanência a dar toques em função das situações que pedem intervenção mais ou menos urgente. O quarto possui uma antecâmara, isolada do quarto por uma porta e uma parede de vidro, onde um enfermeiro se encontra 24 sobre 24, cuja única função é tomar conta do paciente transplantado. O enfermeiro quando entra na zona de isolamento própriamente dita, equipa-se com máscara, toca e uma túnica, para evitar ser portador de potenciais riscos de infeção. O mesmo procedimento se aplicaria a visitas (quando as tivesse), auxiliares, pessoal que entrega alimentação, médicos. Claro que o quarto se encontra em sobrepressão, pelo que a tendência do ar é sempre a sair, sendo injectado sempre ar novo e filtrado. Nota-se sempre um ligeiro sopro que resulta dessa entrada de ar.

Antes do transplante, e dada a demora, cheguei a pensar que, o facto de existirem poucos isolamentos, apenas três, onde se pode permanecer 6 meses ou mais (embora raramente tanto tempo), poderia ser um limite que impediria o transplante, obrigando a perder oportunidades. Mas o Dr RS cedo esclareceu que não, pois segundo ele, embora se pratique sempre, não é imperativo este período de isolamento para os transplantados cardíacos ( não é o caso dos pulmonares), podendo os transplantados ficar apenas em cuidados intensivos, como sucede em alguns países onde essa parece ser a prática.

Assim, acordei no isolamento, ventilado, com a boca seca, cheio de agrafes no peito, totalmente incapaz de me movimentar na cama, devido a dores, com sondas coladas no peito, vários tubos saíam do meu corpo que conduziam fluidos que asseguravam medicação, ou retiravam plasma, restos de sangue ou urina, e que saíam deste corpo agora inerte. A sensação que tinha era "Safei-me !!!".

As poderosas máquinas que se encontravam por detrás da minha cabeceira, que só vía pelo reflexo no vidro que separava o quarto da antecâmara, produziam os mais diversos sinais sonoros, que me permitia saber que estavam atentos à minha pessoa. O coração, esse novo orgão "usado mas em bom estado", funcionava, sentia a sua cadência certa, e podia ver no monitor a curva do electrocardigrama, normal, com o batimento sinusal correcto, nada comparável com a total anarquia que era antes de transplantado. Por vezes o enfermeiro entrava, equipado a rigor, verificava alguma coisa, limpava a tubagem do ventilador, ou acenava para mim, que não me podia mexer. A alimentação também era especial, meio liquefeita, numa curta fase inicial, e pouco a pouco foi passando ao normal. mas normal para transplantados, com talheres e recipientes descartáveis, sobreaquecido tudo em forno, fornecida numa caixa isotérmica azul, a escaldar, para que toda a possibilidade de infeção fosse eliminada, por acção da temperatura.

Foi aqui que passadas poucas horas, pelo final da manhã me foi retirada a ventilação, e comecei a respirar pelos meus meios, mantendo apenas o fornecimento de oxigénio, através de uma sonda nasal, o que de imediato melhorou a minha qualidade de vida. Foi tudo tão rápido que quase não queria acreditar que na véspera por esta hora estava ainda prostrado naquela longa espera sem novidades. De repente tudo mudou, depressa e bem, por enquanto. O pessoal que acompanhava estava optimista, o Dr RS, entretanto veio, não o via desde o anúncio de ontem, e pelas suas palavras e sorriso percebi que para já tudo estava bem. O essencial estava feito. Veio também o Prof JF, que dirigiu a operação, e que pela segunda vez mexia no meu peito, e tinha sangue meu nas suas mãos. Deu ânimo, e confirmou o veredito, tudo correra como se esperava.

Transplante

 
 
transplante
(derivação regressiva de transplantar)
s. m.
1. [Cirurgia]  Operação que consiste na transferência de um tecido, órgão ou parte dele para outra parte do corpo do mesmo indivíduo ou para outro indivíduo (ex.: transplante de medula óssea). = TRANSPLANTAÇÃO
2. [Cirurgia]  Fragmento de tecido ou órgão que se transplanta.

Sinónimo Geral: ENXERTO

transplantar - Conjugar
(trans- + plantar)
v. tr.
1. Arrancar de um lugar para plantar noutro.em outro.
2. [Cirurgia Transferir tecido, órgão ou parte dele para outra parte do corpo do mesmo indivíduo ou para outro indivíduo. = ENXERTAR
v. tr. e pron.
3. [Por extensão]  Fazer passar ou passar de uma região para outra.
4. [Figurado]  Traduzir; trasladar.


Nada sei do meu transplante cardíaco. A partir do momento do apagão, tudo se passou ao lado, dentro de mim, comigo, mas sem de nada me aperceber. Entrei pelas 19h e acordei pelas 8h da manhã segunte, entubado, ventilado, com muitos fios e tubos a sair do corpo, ligados a gigantes máquinas que emitiam sons estranhos, bips, alarmes. A dor geral impedia-me de mexer o corpo, e o tubo no nariz e boca incomodava. Já tinha passado por isto aquando do meu by-pass triplo há 3 anos.

De resto foi uma noite descansada, maior do que o habitual; soube pelos enfermeiros que a cirurgia se iniciou pelas 21 h e terminara próximo das 2h da manã, já era segunda feira. Tinha sido rápido, para o que eu previa. ,Soube porque me disseram. De resto tinha consultado na internet, e no que fui lendo. O coração do dador permanece com o seus sinais vitais, a corrente sanguínea é desviada, e, à medida que se retira o orgão danificado, o meu, se vai introduzindo no espaço livre o coração do dador, . Nem sei se é assim. Depois é fixar as diversas artérias e veias que entram e saem do orgão, e repôr a circulação com o orgão a bater. É como se um sopro de vida se comunicasse, como se a vida que definitivamente se escapou do dador, se mantivesse concentrada naquele pedaço de músculo, e eu tivesse sido contagiado por ela. Um milagre operado por aqueles homens e mulheres que tocam a vida e com as suas mãos a transferem de um corpo para outro, de um que morreu para outro que quase morre. Aqui apenas um sinal de morte que cria e mantém a vida no outro. Sentimos, pensamos, somos capazes de racionalizar, mas operou-se um "milagre", a mão do homem foi a executora das decisões de Deus. Não houve sofrimento, dor, pânico, medo, mas apenas a serenidade de mais uma noite dormida. Tudo afinal tinha corrido como sempre esperara. Sem surpresas ou imprevistos.

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anúncio
(latim annuntium, -ii, que anuncia)
s. m.
1. Aviso ou notícia que se dá de alguma coisa. = COMUNICAÇÃO
2. Mensagem escrita ou audiovisual que promove determinado produto ou serviço nos principais meios de comunicação.
3. Sintoma, indício.

Tinham-me sempre dito que na altura do Natal é que é !!! Mantenha a calma, mantenha-se em bom estado, vivo, tenha esperança, no Natal, infelizmente para os outros, a disponibilidade de orgãos para transplante aumenta, e isso é uma nova esperança.

À medida que a data se aproximava a esperança aumentava. A partir da reentrada na lista de espera, após aquela infeção indesejada, a perspectiva de obter um novo coração alimentava o sonho de sair daquela cama..., para uma vida quase normal. Entretanto, a regra de que é preciso piorar para depois melhorar, estava de facto a cumprir-se. Eu sentia-me cada vez pior. A monitorização do meu ritmo cardíaco mostrava batimentos desordenados, por vezes tropeçava, caía e em dois ou três batimentos quase simultâneos, recuperava. O coração corria, e dava trambulhões... As complicações apareciam, mas íam-se resolvendo. Estava atento às notícias, com uma postura algo seráfica... Acidente junto ao Estádio Nacional com três mortos, acidente na nacional núnero tantos, dois feridos graves. Algo me dizia que a solução do meu problema estaria ligado a estas situações que se passavam um pouco por todo o lado, acentuadas no Natal. Segundo ouvira dizer o que importava não eram os mortos, pois destes que sucumbiam nas estradas não era possível aproveitar o coração que morria. Os feridos graves, que vinha a falecer no Hospital, sim, pois nesse caso era possivel controlar a morte cerebral, mantendo o coração vivo e em condições de ser doado. As condições climatéricas tinham sido severas nesse ano, a agravavam-se, tornando a situação nas nossas estradas mais perigosa, e os riscos maiores. Estranho, eu não desejava intimamente que ninguém morresse ou ficasse ferido, mas de qualquer forma sabemos que alguém vai ter de ficar ferido e morrer nas estradas, a julgar pelo histórico do tráfego. É uma fatalidade da qual eu poderei tirar partido. É estranho, é assim que as coisas são por mais que eu não quisesse. Claramente, a minha solução passava por ali.

Chegou a semana do Natal e a ansiedade aumentava. Algo poderia acontecer. Recordo-me que tinha estabelecido três objectivos, e o um deles era ter o transplante feito com sucesso até final do ano. Faltava pouco. Os dias iam decorrendo sem que os pudesse parar, sem esperas, todos os  dias contavam, todos tinham o mesmo valor. Chega-se a véspera de Natal, a consoada com as minhas filhas, e a consoada solitária da MA e  nada acontece. A mesa de cabeceira serviu de mesa de consoada, o bacalhau não faltou, trazido pelas filhas bem como o bolo rei.

Durante o dia olhava para a porta e para o relógio que a encimava, e a notícia que esperava jamais entrava por ela. Pensei que talvez o momento fosse o Ano Novo. Afinal o meu "objectivo" não seria verdadeiramente um objectivo mas sim um desejo. O dia de Natal passou-se, a MA veio ao almoço, ficou para a tarde, e também para o dia seguinte, 26 de dezembro. Suavizou-se alguma da ansiedade. Nesse dia a MA almoçou comigo e partiu para regressar a casa no autocarro das 15h15. Deixou-me por volta das duas horas, quando terminava a visita,  saiu. Passado algum tempo pela porta para onde a esperança estava sempre virada, entra o Dr RS e diz-me de forma calma, quase a medo, "há uma possibilidade de termos orgão disponível, mas ainda há testes a fazer, para saber da compatibilidade". A partir dagora não comia mais nada, e os enfermeiros ocupar-se-iam da preparação para a cirurgia. "Quando houver noticias definitivas eu informo, talvez no final da tarde já se saiba, entretanto convém estar preparado".

Era assim que no inicio me tinha sido dito que tudo se passaria.Seria feito um anúncio, mas este poderia ser um "falso alarme", tinha no entanto de me preparar como se fosse real. Se, após os testes, entre o sangue que já me tinha sido retirado para o efeito, e o do dador, ainda antes de ser recolhido o orgão para transplante, poderia ser clarificada a possibilidade da cirurgia.

Agora tinha pela frente três ou quatro horas de espera, que poderia terminar com uma de duas respostas: sim ou não ! Se fosse sim subiria para a cirurgia, se fosse não teria de esperar nova oportunidade.
De imediato começou a preparação. Não tive sequer tempo para pensar. Foi retirado mais sangue, e de seguida fui tomar banho completo, com um produto desinfectante. Retiram as pilosidades na região a operar, fiz  necessidades fisiológicas, com a ajuda de um clister. Fui pesado e tinha 60 kg, teria assim perdido 23 kg desde o inicio da "crise", em cerca de 6 meses. Fui vestido apenas com uma túnica verde, muito leve, em teflon, e colocaram-me um barrete na cabeça, do mesmo produto, e estava totalmente preparado para passar a tarde, até vir a resposta definitiva.

Não me sentia mais ansioso, receoso ou com medo. Acreditava na cirurgia e no seu sucesso. Apareceu a anestesista para que assinasse uns papéis e responder a algumas perguntas. Autorizar a operação, a anestesia, transfusão. Surgiu também um médico, com um grande capote pelas costas e barba por fazer para trocar algumas impressões comigo. Percebi que ía fazer parte da equipa que ía realizar a operação, se houvesse operação. Era domingo, provavelmente estaria em casa, à lareira, estava frio, e tinha sido chamado.
Em menos de uma hora tudo foi tratado, e agora era esperar. Os enfermeiros, auxiliares e médicos de serviço vinham despedir-se e desejar sorte. Era também uma grande alegria para eles terem sido capazes de me manter vivo, e terem-mea feito chegar a este dia. Torciam por mim. Estvamos a ter o retorno da esperança. Por mim deitei-me e procurei dormir de cabeça tapada, ouvi música, e esperei.

Já tinha feito os telefonemas necessários, e só esses, três ou quatro pessoas próximas, e coloquei um post no meu blog a dizer aos vindouros que por lá passassem que se deixasse de aparecer, era porque tinha sido operado e corria bem, e só dentro de algum tempo iria reaparecer. As minhas filhas vieram para arrumar as minhas coisas e levar todo o material que tinha sido usado para me ocupar a cabeça.  O livros,  a TV, computador, iPod, telemóvel, roupa, bolachas, cadernos, medicamentos, sapatos, tudo ficou arrumado para sair (ou não). de uma forma ou de outra poderia já não regressar àquele local, embora arriscasse manter.me por ali. Por isso esperaram até que a noticia chegasse de forma definitiva. E não demorou.

Pelas seis da tarde um outro médico da própria unidade chegou junto de mim e informou-me que o Dr RS tinha telefonado, não viria pessoalmente, para me dizer que a resposta era positiva., pelo que a cirurgia ía avançar, e muito em breve ía ser transferido para o bloco operatório.

O sentimento foi de um grande alívio, a excitação aumentou, jamais senti medo de que algo não corresse bem. Era como se tivesse sido fechado numa cerca durante meses e de repente uma porta se abria, teria de percorrer um caminho, mas mesmo que estivesse rodeado de leões eu correria por ele sem hesitar, pois não havia outra saída e a cerca onde estava fechado já ruía um pouco por todo o lado.

Finalmente a espera terminara e o momento das decisões chegara. Ía mesmo receber um novo orgão, vital para sobreviver. Vinha de S. Maria, foi a única informação que obtive.  Passados poucos minutos os auxiliares removeram a cama saí pela porta por onde a notícia tinha entrado, era a porta da esperança, que me tinha alimentado o sonho durante muitos meses. No corredores enfermeiros, auxiliares, e até as funcionárias da ICA ( que me serviam as refeições e me chamavam de "pisco", pelo pouco que comia ), vieram ver a minha saída e desejar sorte. Foram os meus 15 minutos de fama... As minhas filhas acompanharam até à porta do bloco operatório, situado no 3º andar. Para lá subi no elevador, e fui reebido pelo pessoal que se ía ocupar da cirurgia. Mudei para uma maca mais adequada ao acto, alguém falava, faziam-me algumas perguntas, respondia a quem podia, entrou a anestesista, a mesma que tinha visto horas antes, nessa tarde, e que agora me picou no braço, até que em segundos tudo desapareceu. Um apagão geral.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Espera


espera |é|
s. f.

1. Ato de esperar.
2. Ponto onde se espera.
3. Emboscada.
4. Prazo marcado (como concessão ao cumprimento de uma obrigação).
5. Saliência em parede lateral ou em peça de madeira onde .há de travar a parede ou a peça que se .projeta acrescentar-lhes.
6. Peça na extremidade do banco de carpinteiro para segurar a madeira que se aplaina.
7. Peça do torno, entre os cabeçotes, para sustentar a ferramenta.
8. Antiga pequena peça de artilharia.
9. Pequena vara que se deixa em sítio anterior à vara de poda para obstar ao alongamento das vides.



Esperar nestas circunstâncias não é linear. Temos diversos níveis de espera. A minha situação sendo urgente, pois estava dependente de medicação para viver, poderia ser interrompida no caso de alguma situação ocorrer que tornasse o transplante impossivel, é o caso de uma infeção em que o agente infecioso tem de ser combatido em primeiro lugar; só depois se avança.

A minha espera foi interrompida e fui retirado da lista de espera durante cerca de três semanas devido a uma bactéria que penetrou através de um cateter colocada na virilha, na artéria femoral..Foi uma situação desesperante, pois neste contexto a espera não é util, e no caso de haver orgão disponível, o que não cheguei a saber, este será destinado, como é normal, a outra pessoa em igual situação.

Esta é uma das mais vulgares "intercorrências" pois o meio hospitalar é "rico" em agentes que nos contaminam, bactérias, virus, muitos resistentes aos antibióticos. No meu caso o desespero ía tomando conta, pois a infeção era resistente, a febre não baixava de forma efectiva e estava cada vez mais débil, subalimentado, pois quase deixara de comer, e com pouca capacidade de reagir. Tudo me puxava para baixo, e o ânimo só podia voltar no momento em que fosse de novo integrado na lista de espera, o que apenas sucederia de novo na segunda semana de Dezembro, depois de cerca de três semanas fora da lista.

Para além desta situação, talvez a mais longa, outras ocorreram, como por exemplo, episódios de arritmia com perda de consciência (sucedeu duas vezes). A espera prolongava-se e nada me dizia qual a rapidez com que tudo se passaria.

Naturalmente nenhum anúncio prévio era dado que não fosse no dia exacto em que o orgão estivesse disponível, para não alimentar falsas ilusões, o que é normal para não ter decepções maiores do que o normal. A vida de quem espera é assim, desespera. No entanto, sem o saber, o momento ía-se aproximandoe tudo o resto não importava mais desde que lá conseguisse chegar. E isso era o que me assustava, que me provocava pânico, o pânico de acordar todos os dias e saber que "ainda"estava naquele local, à espera, à espera, à espera. Felizmente o túnel mantinha uma pequena luz acesa lá no fundo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Prévio


prévio
(latim praevius, -a, -um, que precede, que guia)
adj.
1. Feito ou dito com antecipação, antes de outra coisa. = ANTERIOR, PRECEDENTEPOSTERIOR, SEGUINTE, ULTERIOR
2. Que deve preceder. = INICIAL, INTRODUTÓRIO, PREAMBULAR, PRELIMINAR, PREPARATIVO, PREPARATÓRIOFINAL
 
Entrei numa fase em que já sabia que não sobreviveria sem o transplante, acho que sempre o soube, mas ainda não sabia se o iria fazer. Teria de fazer um conjunto de exames prévios que detectariam ou não algumas situações incompatíveis com a realização do transplante, ou implicando a necessidade de algumas terapias complementares. Assim, para além da clonoscopia e endoscopia já feitas, muitas análises, hemoculturas, exames urológicos, dentários, TAC, raio X, alguns feitos no Hospital de  S. José, onde me deslocava ( onde me levavam !!!).

Após entrar para os cuidados intermédios, vindo de Beja, onde iria permanecer, deixaram-me na sala maior, onde o movimento era intenso, de dia e de noite, o que me causava grande  incómodo. Manifestamente era um local impróprio para quem iria "viver" ali meses. Assim acabaram por me arranjar um cantinho, discreto junto a uns armários de arrumos, mas onde eu geria melhor o meu espaço, a luz, o ruído. Nesta "sala" havia apenas dois doentes, enquanto na anterior havia oito. Assim estava protegido do exterior, mais afastado da confusão. Devo isso em boa parte à enfermeira Célia, que mal vagou o local, reuniu forças para colocar lá a minha cama.

Às tantas, uma das análises, PSA e PSA livre, ligadas ao controlo da próstata deu valores inadequados, e tiveram de tirar tudo a limpo. Enquanto tal não fosse esclarecido, nada feito, não tinha luz verde, e não entrava na lista de espera para transplante. Para isso tive de fazer uma biópsia próstática, para confirmar ausência de neoplasia, o que felizmente se confirmou. Após tudo concluído, analisado, tratado, foi-me finalmente anunciado que entrara na lista de espera. Tinha-se passado um mês sobre o meu internamento em S.Marta e estávamos a 28 de Outubro. Agora era esperar que o orgão compatível aparecesse, e eu estivesse em condições do receber, o que implicava que outras "intercorrências" não ocorressem. Nesse caso seria de novo retirado da lista até se reunirem de novo condições.

Entretanto o meu "novo" coração ainda batia no peito de alguém, que desconhecia que iria ser "ceifado", e isso era o que me permitiria sobreviver. Irónico, não ?

O outono entrara com muito frio e chuva intensa, e ali estava protegido. Todos os dias me degradava um pouco, todos os dias havia algo que não corria bem, mas sobrevivia contra o tempo, mantinha-me à tona, embora os sinais de monitor fossem cada vez mais confusos, mais desordenados, dando indicação de um coração descompassado, um ritmo incerto e imprevisível, preparado para me fazer passar momentos de grande pânico e muitas vezes o medo instalava-se.

Na cama do lado pessoas entravam e saiam, um desfile de patologias cardíacas, pessoas resignadas, outras indignadas, fumadores, bebedores, gordos e magros, agricultores e juizes, gente cujo ponto comum era terem o coração afectado por algo que as perturbava. Nada feito, dezenas de doentes iam e vinham e eu ficava, ficava sempre à espera de outros dias melhores. Apenas o Dr RS por vezes aparecia para me dizer "Por enquanto nada!!"  Entretanto outros médicos ocupavam-se de mim, analisavam a evolução, colocavam e retiravam cateteres, medicavam nas crises. A palavra certa era esperar, esperar o meu momento.